PT / EN
 
29.06 > 27.07.2017
Ângela Ferreira — Talk  Tower for Ingrid Jonker
with Pau Grendon




Poesia na morte

“In the midst of despair, she celebrated hope. Confronted by death, she asserted the beauty of life.”
Nelson Mandela (Maio, 1994)

Ingrid Jonker escolheu. É difícil falar sobre suicídio, aceitá-lo, respeitá-lo. É difícil sobretudo entendê-lo. Na verdade o que se sabe é que Ingrid Jonker sofria, como sofrem todos os que tomam uma decisão desta natureza. Acredito que quem sinta profundamente a ausência de justiça, não consiga viver num lugar em que se confronte diariamente com situações de segregação, hostilidade social, ou racismo. Acredito que a dor de não conseguir alterar essa desigualdade não permita viver em paz e harmonia. E que finalmente, essa dor de viver ultrapasse o medo de morrer. A escolha de Jonker transporta teóricos para questões pessoais, sociais ou de foro psiquiátrico. A mim transporta-me apenas para a essência de um acto libertador. E que no limite resume tudo o que procurou defender nos seus poucos anos de vida: a liberdade de escolha como princípio fundamental de qualquer ser humano. É poesia o que encontro na exposição de Ângela Ferreira quando olho para as várias imagens do mar onde Ingrid Jonker decidiu entrar pela última vez. Não só a paisagem é bela como lembra a vida de Jonker, que amava esse mar. Ingrid Jonker escolheu. E sua escolha, por sugestão de Ângela Ferreira, também nos traz a criança que não morreu. Olhamos para a imagem daquela praia na Cidade do Cabo e ouvimos ao mesmo tempo a voz de Jonker, a declamar numa língua aparentemente codificada, quase indecifrável, o seu poema “Die Kind” (“The Child”). O som parte de uma réplica de uma torre de radio, cuidadosamente desenhada e construída por Ângela Ferreira, objecto simbólico enquanto propagador de mensagens. E esse objecto leva-nos a crer que ouvimos alguém vivo, a falar-nos de um outro lugar. Imagem e som fundem-se. Falam-nos de liberdade e dor. De perseverança, luta, coragem. Da eternidade. De vida e de morte. Ingrid Jonker enfrentou o ‘apartheid’ através da poesia. Lutou com energia e determinação contra a descriminação racial e pelos direitos humanos de todos na África do Sul. No dia em que viu uma criança negra a morrer com um tiro na cabeça nos braços da sua mãe em Nyanga, Jonker, que na altura já tinha uma filha pequena, sentiu necessidade de imortalizar aquele episódio que não conseguia, nem queria esquecer. Através do seu poema escrito em Afrikaans, aquela criança tornou- 1 Imersa no desespero, celebrou a esperança. Confrontada com a morte, afirmou a beleza da vida. se um símbolo contra o ‘apartheid’. Aquela criança iria ser a sombra dos soldados que dispararam contra ela. Aquela criança iria erguer-se e gritar para sempre, por todo o mundo, em defesa da democracia e dos direitos humanos na África do Sul. E nunca morreria. Quando Nelson Mandela em 1994 evoca a poetisa no seu primeiro discurso presidencial, fá-lo com verdade: “(...) she took her own life, she was both an Afrikaner and an African (...)”. Ingrid Jonker escolheu e Ângela Ferreira mostra-nos essa escolha com uma cadência própria. Envolve-nos. Pede-nos ora para olhar, ora para fechar os olhos e ouvir. Exige que sintamos. Porque não é possível ouvir aquelas vozes transformadas em poesia, ver aquela praia, aquelas rochas e aquele mar, sem sentir nada. E enquanto Mandela diz ao mundo que a criança não está morta, o mar da Cidade do Cabo lembra- nos o silêncio e a paz de quem já não existe.

Vera Appleton, 2017


créditos © photodocumenta



   
sobre   apoios   edições   imprensa   contactos   2007-2018
Mecenas: HCI / Colecção Maria e Armando Cabral