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16.05 > 13.06.2017
Jacobo Castellano & Noé Sendas — Espantoso, esquisito
Curadora: Virginia Torrente




Para os portugueses não familiarizados com a língua espanhola, existem palavras cujo significado é muito diferente do que parece. Ou mesmo, que definem o oposto. "Espantoso" em espanhol refere algo de medonho, enquanto "exquisito" é utilizado para dizer que algo é singular, primoroso. Estas palavras que confundem noutra língua chamam-se falsos amigos. Jacobo Castellano (Jaén, Espanha, 1976) e Noé Sendas (Bruxelas, Bélgica, 1972) são dois artistas, respetivamente espanhol e português, que se procuraram mutuamente para trabalharem juntos, para realizarem esta exposição, num exercício de espanto e do esquisito/exquisito, que abarca a dualidade dos seus trabalhos para os tornar num só, com todas as semelhanças e diferenças que tal implica. Com todas as suas dificuldades e surpresas. Um trabalho no sentido português de «espantoso», quer dizer, extraordinário, e «esquisito», de algo estranho, fora do normal. O conceito de autoria é diluído num processo conjunto, num caminho criativo árduo e complicado, até alcançar o resultado final da obra, que é dos dois, de Sendas e de Castellano, que avançam atados. Por decisão própria. Uma ideia de trabalho a quatro mãos. Uma aventura que surge do interesse, da admiração e da curiosidade de um pelo outro, até chegar à fusão: uma articulação, uma reunião, uma conjuntura, tão precária quanto absolutamente admirável. Uma reunião da diferença. «Experimentar as situações limite e existir são a mesma coisa» – disse Karl Jaspers –, «chegamos a ser nós mesmos entrando nas situações-limite com os olhos bem abertos». No percurso de tentativa e erro que unifica o trabalho destes dois artistas num só, inédito para esta exposição, há muito de aventura, de aposta, de experimentação e de generosidade. Também de diálogo de surdos, ao intrometerem-se e deixarem que o trabalho de um impregne o do outro, ao partilharem um atelier em Madrid durante quase um ano, onde a comunicação em portunhol, somada a uma linguagem de objetos e ações em comum, teve como resultado as obras que se podem ver agora aqui em Lisboa, na Appleton Square. Jogo e utilidade conjugam-se nas obras de Castellano e Sendas, tendo por base a atração mútua por objetos encontrados, na rua, em feiras e antiquários, que apelam à memória e aos interesses de ambos os artistas. Nessa busca, enquanto que para um as reminiscências do lúdico são inevitáveis (Castellano), para o outro (Sendas) a utilidade e a precisão são o que levam à sua aquisição. E essa série de objetos, que se incorporam com tremenda facilidade no trabalho criativo de ambos – às vezes como eixo da obra, outras como motor de arranque da mesma – funcionam igualmente como contentores de ideias sobre os quais gira a exposição. Interiores e exteriores, o comum e o privado, ocorrem neste projeto, onde o humor também está presente como ponto de apoio importante para uma melhor comunicação – onde investigações próprias, no gesto de fazer algo com um objeto e na exposição ao outro, são uma linguagem que satisfaz a ambas as partes. Para uma aproximação do espectador a esta exposição, será então útil prosseguirmos com uma reflexão que parte de dualidades contrapostas, como útil-inútil, eficiência- ineficiência. Uma visão desclassificada do já conhecido, do uso não adequado de certos objetos, de estruturas surpresa, que desafiam, de maneira modesta, o olho, que tem de fixar-se no colapso do referencial, numa cenografia surrealista. Citamos Josep María Esquirol em La resistencia íntima. Ensayo de una filosofía de la proximidad: «Pensar o limite como zona limítrofe, e mostrar assim a zona do cosido, da juntura, o lugar onde uns agrafos unem, sem confundir, dois limites. O limite como zona limítrofe converte-se, então, numa chave interpretativa que mostra a sua fecundidade porque permite continuar a pensar temáticas relevantes sob uma nova luz (em vez de descartá-las). É uma figura-conceito que fecunda outras». Reorganizar dois estados mentais num só: a contraposição serve de ponto de partida para um diálogo – de surdos? – entre os dois, que se sustenta em certos pontos de concordância: prescindir de, mostrar de uma maneira velada, semioculta... Ligações e contradições dão lugar a um imaginário comum. Na iconografia de Sendas habitam personagens veladas, sendo característica de Castellano os sapatos, inteiros ou cortados. Ambos os elementos de cada um aparecem em situações estranhas, bizarras, esquisitas e espantosas. Dois pares de calças de cada um dos artistas são protagonistas desta fusão laboral, apoiados numa cadeira. Duas bengalas estão penduradas, despojadas de seu uso, numa parede: ao modo de uma performance congelada, o corpo desaparece, para permanecer representado numa situação inválida, num equilíbrio estático. Este equilíbrio estático é característico de toda a exposição: as bengalas ajudam a caminhar, as telas acham-se fixas e esticadas por tijolos no chão e um sapato no teto... Estruturas sem finalidade prática, como as que constroem frequentemente os humanos, sem que se deem conta. Elementos de uso quotidiano convertem-se em representantes do absurdo, de um jogo muito sério, mas também carregado de um grande sentido de humor. Soterrado, enterrado. Ambos os artistas despiram-se um para o outro, cedendo as suas calças para um trabalho de intuição partilhada a partir do conhecimento comum, da comunicação no atelier. Abandonaram os seus apoios, as bengalas, numa parede. Apontamentos em papel, notas posteriormente raspadas com lixa, são também prova de duas velocidades, duas visões que se convertem em uma, que conformaram um trabalho comum, uma série de experimentos baseados na tática da tentativa e erro, do escondido, do achado e do recuperado, numa paisagem em que Jacobo Castellano e Noé Sendas se encontraram, a gosto, os dois.

Virginia Torrente, 2017



créditos © appleton square



   
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