Jacobo Castellano & Noé Sendas — Espantoso, esquisito
Curadora: Virginia Torrente

Para os portugueses não familiarizados com a língua espanhola, existem palavras cujo
significado é muito diferente do que parece. Ou mesmo, que definem o oposto. "Espantoso" em espanhol refere algo de medonho, enquanto "exquisito" é utilizado para
dizer que algo é singular, primoroso. Estas palavras que confundem noutra língua
chamam-se falsos amigos.
Jacobo Castellano (Jaén, Espanha, 1976) e Noé Sendas (Bruxelas, Bélgica, 1972) são
dois artistas, respetivamente espanhol e português, que se procuraram mutuamente
para trabalharem juntos, para realizarem esta exposição, num exercício de espanto e do
esquisito/exquisito, que abarca a dualidade dos seus trabalhos para os tornar num só,
com todas as semelhanças e diferenças que tal implica. Com todas as suas dificuldades
e surpresas. Um trabalho no sentido português de «espantoso», quer dizer,
extraordinário, e «esquisito», de algo estranho, fora do normal. O conceito de autoria é
diluído num processo conjunto, num caminho criativo árduo e complicado, até alcançar
o resultado final da obra, que é dos dois, de Sendas e de Castellano, que avançam
atados. Por decisão própria.
Uma ideia de trabalho a quatro mãos. Uma aventura que surge do interesse, da
admiração e da curiosidade de um pelo outro, até chegar à fusão: uma articulação, uma
reunião, uma conjuntura, tão precária quanto absolutamente admirável. Uma reunião da
diferença. «Experimentar as situações limite e existir são a mesma coisa» – disse Karl
Jaspers –, «chegamos a ser nós mesmos entrando nas situações-limite com os olhos
bem abertos».
No percurso de tentativa e erro que unifica o trabalho destes dois artistas num só,
inédito para esta exposição, há muito de aventura, de aposta, de experimentação e de
generosidade. Também de diálogo de surdos, ao intrometerem-se e deixarem que o
trabalho de um impregne o do outro, ao partilharem um atelier em Madrid durante quase
um ano, onde a comunicação em portunhol, somada a uma linguagem de objetos e
ações em comum, teve como resultado as obras que se podem ver agora aqui em
Lisboa, na Appleton Square.
Jogo e utilidade conjugam-se nas obras de Castellano e Sendas, tendo por base a
atração mútua por objetos encontrados, na rua, em feiras e antiquários, que apelam à
memória e aos interesses de ambos os artistas. Nessa busca, enquanto que para um as
reminiscências do lúdico são inevitáveis (Castellano), para o outro (Sendas) a utilidade
e a precisão são o que levam à sua aquisição. E essa série de objetos, que se
incorporam com tremenda facilidade no trabalho criativo de ambos – às vezes como
eixo da obra, outras como motor de arranque da mesma – funcionam igualmente como
contentores de ideias sobre os quais gira a exposição. Interiores e exteriores, o comum
e o privado, ocorrem neste projeto, onde o humor também está presente como ponto de
apoio importante para uma melhor comunicação – onde investigações próprias, no gesto de fazer algo com um objeto e na exposição ao outro, são uma linguagem que
satisfaz a ambas as partes.
Para uma aproximação do espectador a esta exposição, será então útil prosseguirmos com uma reflexão que parte de dualidades contrapostas, como útil-inútil, eficiência-
ineficiência. Uma visão desclassificada do já conhecido, do uso não adequado de certos objetos, de estruturas surpresa, que desafiam, de maneira modesta, o olho, que tem de
fixar-se no colapso do referencial, numa cenografia surrealista.
Citamos Josep María Esquirol em La resistencia íntima. Ensayo de una filosofía de la
proximidad: «Pensar o limite como zona limítrofe, e mostrar assim a zona do cosido, da
juntura, o lugar onde uns agrafos unem, sem confundir, dois limites. O limite como zona
limítrofe converte-se, então, numa chave interpretativa que mostra a sua fecundidade
porque permite continuar a pensar temáticas relevantes sob uma nova luz (em vez de
descartá-las). É uma figura-conceito que fecunda outras».
Reorganizar dois estados mentais num só: a contraposição serve de ponto de partida
para um diálogo – de surdos? – entre os dois, que se sustenta em certos pontos de
concordância: prescindir de, mostrar de uma maneira velada, semioculta... Ligações e
contradições dão lugar a um imaginário comum. Na iconografia de Sendas habitam
personagens veladas, sendo característica de Castellano os sapatos, inteiros ou
cortados. Ambos os elementos de cada um aparecem em situações estranhas, bizarras,
esquisitas e espantosas. Dois pares de calças de cada um dos artistas são
protagonistas desta fusão laboral, apoiados numa cadeira. Duas bengalas estão
penduradas, despojadas de seu uso, numa parede: ao modo de uma performance
congelada, o corpo desaparece, para permanecer representado numa situação inválida,
num equilíbrio estático. Este equilíbrio estático é característico de toda a exposição: as
bengalas ajudam a caminhar, as telas acham-se fixas e esticadas por tijolos no chão e
um sapato no teto... Estruturas sem finalidade prática, como as que constroem
frequentemente os humanos, sem que se deem conta. Elementos de uso quotidiano
convertem-se em representantes do absurdo, de um jogo muito sério, mas também
carregado de um grande sentido de humor. Soterrado, enterrado.
Ambos os artistas despiram-se um para o outro, cedendo as suas calças para um
trabalho de intuição partilhada a partir do conhecimento comum, da comunicação no
atelier. Abandonaram os seus apoios, as bengalas, numa parede. Apontamentos em
papel, notas posteriormente raspadas com lixa, são também prova de duas velocidades,
duas visões que se convertem em uma, que conformaram um trabalho comum, uma
série de experimentos baseados na tática da tentativa e erro, do escondido, do achado
e do recuperado, numa paisagem em que Jacobo Castellano e Noé Sendas se
encontraram, a gosto, os dois.
Virginia Torrente, 2017
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