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16.02 > 09.03.2017
Henrique Pavão
Wherever I am not is the place where I am Myself




Uma nuvem escura e oleosa alastra sobre tudo, misturando a água, a terra e o céu com tal perfeição que deixa de ser possível distingui-los. Tudo está húmido e negro. O horizonte, finalmente, palpável. O espaço, por fim, homogéneo. Um caleidoscópio imenso no qual todos os objetos assumem uma dimensão incomensurável refletindo e defletindo todos os outros numa infinidade de ângulos. Nesta altura, tudo tinha de ser móvel para evitar ser destruídoi – Foi a partir desta premissa que os tanques de guerra foram criados, ao contrario dos bunkers, que quase parecem ter sido ali colocados pedindo para serem trespassados, arrebentados e fragmentados. Duvido que estes monólitos tenham alguma vez sido concebidos para perdurar para sempre; Basta olhar de relance a espessura das suas paredes para imaginar o poder de impacto do inimigo. É relevante referir o desejo do artista de ver as suas obras destruídas, sendo esta a única maneira de progredir. Mas, ao dar quietude às coisas criadas, é o artista que tem de estar em contínuo movimento. O colapso de uma obra prefigura a emergência da seguinte, forçando o artista a mover-se entre elas: a sua mobilidade existe em nome da mobilidade das obras. Pela destruição, o artista perde. É tudo o que importa. Os seus passos são movidos pelo desejo de perda constante. É a nostalgia que mantém as suas obras vivas. Afinal, existirá algo mais poderoso do que aquilo a que deixámos de ter acesso? A ausência define um caminho que nos leva a um vazio que urge preencher. É uma viagem onde pegadas limpas são deixadas para trás devido à irreversibilidade dos passos, movidos pela necessidade de recuperar. Ao caminhar pelas ruínas do seu passado, o artista vê um futuro construído com as mesmas cinzas mentais. Impressiona-me o quanto conseguimos destruir e construir meramente através da viagem. É neste ato liminar que a criação ocorre. Ao longo dele, o enterrar entra em ação; e é também quando as sementes são lançadas da janela do carro e deixadas em solo fértil, para que algo se desenvolva. Já alguma vez te encontraste a desenterrar aquilo que tinhas enterrado alguns anos antes? Se é esse o caso, devo dizer-te, que a sua história não será nunca totalmente recuperada porque o passado permanece, para sempre, silencioso, e não gosta de ser perturbado. Mas imagino que irás concluir por ti que estás a agir de forma perigosa. Seja como for, e caso queiras arriscar, a satisfação de relembrar a sua ausência poderá ajudar-te a enterrá-la novamente, mas desta vez num túmulo impenetrável e à prova de balas. A única maneira de esquecermos é sermos lembrados da ausência das coisas. Um enorme túmulo foi encontrado na periferia da cidade: mais de 100 hectares de destruição vertical, acumulada ao longo de 130 anos, permitiram a construção vertical da arquitetura adjacente. A pedreira está rodeada por condomínios de luxo, erguidos em torno da sua periferia e os seus habitantes voltados perpetuamente para um profundo desfiladeiro, provavelmente desconhecendo que o lugar onde se encontram foi retirado do lugar para onde olham. A pedreira foi, noutros tempos, um lugar ruidoso e poeirento; um teatro de calcário onde as representações decorriam sempre ao som de uma banda sonora interminável de borracha e cimento. Mesmo depois de nos afastarmos era impossível não ouvir, à noite, nas penas da almofada, o ruído do tráfego a atravessar a ponte enferrujada. Permanece agora ali, esquecida e exposta ao vazio, como os bunkers na costa do Atlântico, sobre os quais a destruição atua lentamente, ecoando num vasto oceano de memórias submersas. Nesses lugares, existe sempre uma fração a ser consumida pela ausência das mãos dos homens, porque são as mãos dos homens que atrasam as intenções do espaço em relação aos objetos, adiando a sua natural desintegração. Imagine-se agora isto: um homem alto e escandinavo, de robe, a tomar café na varanda do seu apartamento de luxo, condenado a conviver com a vista de uma masmorra poeirenta a seus pés. O buraco funciona como uma lembrança das suas fundações, como um vazio monumental que define, sem tentar, os vestígios da memória de um conjunto abandonado de futuros (II). Será esta cúpula gigante um monumento ao passado? Ou um monumento ao futuro? Será que é uma ruína romântica ou uma ruína invertida? É difícil dizer.

Henrique Pavão, 2017

I Paul Virilio, Bunker Archeology (Nova Iorque: Princeton Architectural Press, 1994), 41.
II Robert Smithson, “A Tour of the Monuments of Passaic, New Jersey” in The Writings of Robert Smithson,
ed. Nancy Holt (Nova Iorque: New York University Press, 1979), 55.



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