Karen Sztajnberg — Room Tone
Imemersive video-art installation - T.I.N.A. Prize

No mundo do cinema, Room Tone refere-se à gravação de um silêncio específico do ambiente de filmagem, que
posteriormente pode ajudar à edição de som de uma sequência, dando unidade a qualquer falha no diálogo.
Quando eu e meu amigo chegámos a este evento desportivo, nós também nos deparamos com falhas a vários
níveis. A nossa tentativa de fazer um documentário sobre as pessoas tentando fazer da dança do varão um
desporto olímpico estava vacilando, com os nossos personagens retraindo-se à medida em que perceberam que
nenhum deles seria exclusivamente o centro do nosso filme.
Eventualmente, este projeto esmoreceu mas eu jamais esqueci a impressão que me ficou de ter frequentado esse
evento por três dias, e como nos sentimos a seu respeito. Em primeiro lugar, ficamos muito chocados com o nível
de adulteração física a que estes participantes se submeteram, apagando traços de género, limitando a
flexibilidade de movimento E para além disso, o uso da fotografia digital do telemóvel e a sua postagem nas redes
sociais. Ver e ser visto, tornara-se um exercício militante e insaciável.
Ao fim do terceiro dia, a sensação de estranheza já se havia dissolvido em normalidade. A proeza física dos
atletas e a sua mentalidade focada, associadas ao frenesim de posar para a câmara tornou-se muito rapidamente
natural. E isso, por sua vez, gerou em mim um enorme desconforto: a facilidade com a qual nós entramos num
ambiente e nos adaptamos demasiado rápido ao seu ritmo, com uma fisicalidade extraordinária.
Esse ambiente de vídeo-digital é uma tentativa de reprocessar essa experiência com um pouco mais de distância
e digestão criativa. À medida em que capturar e postar imagens auto-referenciais se torna o evento principal, o
que isso diz a respeito da nossa cultura e a sua tendência para dar primazia ao visual? Como estar confinado a
espaços fechados e voluntariamente tornarmo-nos audiência para físicos extraordinários, redefine a escopofilia
de um sujeito mediano? Que necessidade está a ser saciada quando nos contentamos em ficar num dos
extremos da díade espectador versus auto-display?
Estas são as perguntas que nos faz o elemento visual desta instalação. No áudio, eu uso três ciclos sonoros para
nos remeter alternadamente ao aspecto sintético do evento original: o silêncio da contemplação distanciada e os
sons brandos e domésticos da parte mundana da vida, que compõe uma parte tão grande das nossas vidas,
provendo descanso do escopo tão demandante de um evento espectacular.
Recomenda-se apreciar a instalação com qualquer ciclo de áudio com o qual se deparado, sair e voltar
regenerado para ver outro ciclo e observar como isso o altera.
Karen Sztajnberg, 2017
| créditos © jordi wijnalda |
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