Marianne Mueller — Facing West
Curador: Sergio
Mah

Tudo começa pela frequentação do quotidiano, os momentos, as coisas, os ambientes e os corpos que nos
afectam, que atiçam a nossa experiência diária. Entre a fotografia e a escultura, entre o vídeo e a
instalação, no trabalho de Marianne Mueller esta inclinação pelo quotidiano representa também uma
tentativa por redescobrir as raízes de uma prática artística baseada na espontaneidade e na
intersubjectividade, que valoriza o contingente e o efémero como motivos de uma indagação
recontextualizadora do real.
O seu trabalho mais conhecido diz respeito a fotografias com uma forte componente diarística,
momentos da experiência privada e íntima, visões fragmentárias do corpo enquanto matéria carnal,
psíquica e sensual. Em paralelo, ao longo da sua trajectória Marianne Mueller tem também evidenciado um
significativo interesse pelas temáticas da arquitectura e do espaço comum, através de uma observação
sensível sobre as qualidades físicas, estéticas e simbólicas associadas a certos lugares, a detalhes
arquitectónicos, situações e objectos prosaicos, encarados como sinais – factuais e irónicos – de uma
paradoxal cenografia do urbano.
Facing West foi concebido especificamente para o espaço expositivo da Appleton Square. A peça
central, Curtain Two (extended), consiste numa cortina com mais de 30 metros de comprimento disposta
paralelamente às quatro paredes da sala do piso térreo. O tecido da cortina foi preparado com pigmentos
fotocromáticos reversíveis, isto é, que sofre mutações (na densidade e na cor) quando atingido pela luz
solar que entra na sala por uma linha alta de janelas viradas a Oeste. Além disso, através de um
mecanismo pré-programado a cortina move-se, entre a revelação e a ocultação dos limites da sala, que
implica também uma variação entre esticar e ondular. No piso inferior, é apresentado num monitor
Horizon_Video Sunrise 1 (Cetara), com uma peça sonora composta por Tobias Preisig, e duas esculturas,
L. LLoret (cama branca) e Collarium (Mini). São peças cuja articulação nos remete para questões
recorrentes no trabalho de Marianne Mueller: a experiência da luz e a sua relação (ontológica) com a
imagem, a atenção às matérias do quotidiano, as contingências do espaço e da arquitectura e,
correlativamente, a possibilidade de jogar com os limites, entre dentro e fora, entre o privado e o público.
Sérgio Mah, 2017
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