Misha Bies Golas — Record
Curador: David Barrio — em colaboração com DIDAC

Uma aproximação atenta à obra de Misha Bies Golas permite-nos compreender que o
seu interesse não se centra unicamente nos conteúdos mas sim em como se formula
cada uma das ideias. Como se o artista quisesse traçar o seu próprio autorretrato, ou
como se tratasse não tanto o ler mas sim o conseguir ler de novo as obras das nossas
afinidades eletivas para refazê-las, procurando uma nova originalidade.
Misha Bies Golas apresenta-nos a realidade, mas a sua maneira de operar é
surrealista, já que essa realidade se desloca a partir de lógicas novas, extremamente
pessoais e tecnicamente refractivas. Assim não seria desapropriada a opção de
experimentar toda a sua obra como um acaso de hipertexto, ou como um labirinto
borgiano, íntimo ao mesmo tempo que interminável. Em términos estilísticos o
descrevê-lo-ia como um “minimal desgastado”, ou como um “minimal contaminado” por
uma série de devoções que vão desde a arte românica à literatura ou ao cinema de
vanguarda.
Neste sentido, o titulo desta exposição, Recordo, não pode ser mais revelador: uma
imagem de má qualidade de uns ténis de desporto de imitação de uma conhecida
marca internacional. O ponto de partida da realidade proposta é, precisamente, o falso,
e todos os materiais da exposição, que poderiam ser recordações, são na realidade
jogos que definem um singular sistema de ficção, uma maneira pessoal de contemplar o
mundo. As relações com a Arte Minimal são indiscutíveis. Mas as afinidades formais
são consequência de intenções diferentes. À reverência sucede irreverencia, e as
regras do minimalismo são pervertidas para se disfarçarem, como uma correção casual,
resultado ao aplicar outra intensidade física e grandes doses de humor a respeito do
significante puro.
Esse citado carácter minimal é evidente no amontoado de cartazes com a precária
imagem dos ténis desportivos que servem de título a esta exposição, que na sua
disposição se convertem numa rígida escultura. A possibilidade de retirar esses
cartazes por parte do espectador e, em consequência, a ruptura dessa realidade
inalterável e auto-suficiente, convertem a obra em souvenir, em recordação. Toda esta
acção em concordância com o performativo da sua obra, que tem aqui maior relação
com a libertação da memória pessoal, como é o caso de uma das suas primeiras
experiências no campo do mundo da arte contemporânea, a obra de Felix González
Torres. Essa apropriação, a do espetador, não deixa de ser a mesma operada por
Micha Bies Golas que acumula no seu estúdio um sem-fim de objetos que esperam a
sua equação aleatória com o objectivo de se transformarem em obras de arte. Todas
elas imagens fugidias, ambíguas, sendo o processamento para essa conversão mínimo,
interessado como está o artista em que tudo conserve as pegadas da sua própria
história.
Misha Bies Golas não se preocupa com a qualidade da imagem, mas sim com o seu
potencial e a sua plasticidade. Encontramo-lo nos citados posters – a imagem,
amarelada, é retirada diretamente da internet – e também no conjunto de tapetes de
borracha de máquinas Offset, que o artista recolhe da tipografia com que trabalha,
limpas e danificadas pelo maquinista, material em principio de degradação que aqui
declina para um tipo de pintura gestual. O artista observa a realidade e recolhe o seu
potencial, neste caso através de um dialogo com o maquinista da tipografia, que é quem
lhe dá a forma, quem descobre o movimento. Tudo se altera sem adicionar nada, comunicando a plasticidade da pintura sem os seus instrumentos físicos comuns, com
precisão industrial minimalista e liberdade gestual expressionista.
Misha Bies Golas trabalha com meios limitados, diferentes, encontrados. A seleção
destes é tão precipitada como rigorosa, compilando dados para uma equação que se
resolve lentamente. Há alguns anos eram recortes retirados de fotografias de revistas
que combinados pelo artista ganhavam formas surrealistas. O sentido de humor era já
então uma eficaz estratégia conceptual; como quando convidou um homem a cortar
presunto para os visitantes do CGAC em Santiago de Compostela, numa obra titulada
El jamón es mío. Porque os títulos, quase sempre literais – em muitos casos a ficha
técnica -, são também fieis a essa deliberada naturalidade minimalista de “o que vês é o
que vês” de Stella, ainda que nesse caso operada a partir da picardia, do paradoxo
visual e, sobretudo, a partir de um extraordinário sentido de humor.
A excecional capacidade criativa de Misha Bies Golas, assim que dá forma a um
pensamento, evidencia-se na sua versatilidade ao utilizar todo o tipo de suportes e
assumir referencias de estilos bem distintos. Assim, entendemos que se uma pintura se
faz a partir dos tapetes de borracha das tipografias, um trabalho site-specific a partir de
livros que pregoam “ a verdade que leva a vida eterna”, ou um tríptico minimalista a
partir do reverso de três desgastados tabuleiros de joias, é, para além do seu potencial
estético, porque o artista desconstrói a realidade como um cómico, partilhando com este
uma das suas principais armas: ser testemunha da decadência. Não me lembro de melhor descrição do trabalho de Misha Bies Golas que a simples
cena de uma casca de banana na rua ; quase sem querer, adivinhamos uma
consequência que antecipa o riso. Mas não é porque o trabalho seja uma anedota, pelo
contrario, o humor é a seriedade oculta dentro da piada. Misha Bies Golas é um
narrador da realidade e a sua citada decadência, um contador de histórias perspicaz,
irónico, dadaísta, paradoxal, singular. Por isso a memoria, o “recordo” ou o souvenir,
ocupa um lugar importante na sua portabilidade física ou virtual. Reconhecemo-lo em
obras como a escultura que realiza a partir dos assentos dos tamboretes de um mítico
pub de Santiago de Compostela, ou nesse conjunto de postais que cola como se
fossem os típicos imãs dos frigoríficos, em caixas que homenageiam os volumes
minimalistas ao mesmo tempo que contradizem o seu carácter puro.
Misha Bies Golas reconstrói o seu mundo aproximando-se da dimensão mais quotidiana
da existência e deslizando por ela até que a imagem se fragmenta. Porque como
assinalou Perec em Espèces d´espaces, “ainda não vimos nada, só havemos
repertoriado o que desde há tempo havíamos repertoriado.”
David Barro, 2017
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