Bruno Cidra & Gonçalo Barreiros — Sleeping Village

Sujar as mãos
Há coisas que não se aprendem nos livros. Fazer andar é a expressão usada por trabalhadores
da construção para descrever o acto de deslocar volumes pesados através de lugares
improváveis ou aparentemente inacessíveis, usando apenas métodos empíricos. Fazer andar foi
o título da última exposição que juntou Bruno Cidra e Gonçalo Barreiros. Sleeping Village é a sua
segunda exposição, onde retomam a ideia de um regresso a princípios fundamentais da
escultura, numa prática assente na experiência directa de transformação de um material.
O título da exposição remete para a imagem de uma superfície silenciosa e de um rumor que se
agita por debaixo. Frequentemente numa exposição, este rumor pode ser formado pelo conjunto
de conceitos e referências que jazem ocultos nos objectos. Aí, a função de uma folha de sala é
desenterrá-los. Dizer ao espectador que uma coisa não é apenas uma coisa, mas também todo
um panteão de fantasmas que ela invoca. Além da oportunidade de ler palavras bonitas
acabadas em "ismo" ou "cidade", fico com a sensação de que, muitas vezes, a folha de sala
serve para me apresentar as razões pelas quais eu me devo convencer que ficar a olhar para o
saca-rolhas é bem melhor que beber um copo de vinho.
Não ignoro que todas as coisas carregam uma história. Há, no entanto, um saber - e um prazer -
que descende directamente da manipulação de um material e que as palavras não substituem ou
sequer traduzem (as palavras terão a sua própria genealogia). Ultimamente prefiro as coisas que
dispensam o catálogo de referências para se virem fundar noutro tipo de rumor, mais elementar
e sem nome.
Ainda que aparentemente despojado e silencioso, este encontro de Bruno Cidra e Gonçalo
Barreiros aponta a esse murmúrio, a ressonância latente e indizível que parece emanar de certos
objectos, e que é deflagrada pela acção transformadora da manualidade. O barro, material antigo
e que aponta a um tempo e experiência primordiais, é utilizado para reproduzir manualmente
vários objectos de perfil industrial. Pleias, colunas e cantoneiras pertencem àquela estirpe de
objectos aparentemente já acabados no momento da sua invenção, dado que respondem tão
directa e perfeitamente à necessidade que vieram cumprir. Poder-se-ia argumentar que há
qualquer coisa de simulacro, trompe-l'oeil ou farejar até laivos de ready-made na atitude de
reproduzir fielmente objectos já existentes. A verdade é bem mais simples. Pleias, colunas,
cantoneiras e sulipas obedecem (e daí a sua eficácia) a princípios elementares de equilíbrio,
peso e gravidade. Ou seja, corre já em si um rumor de escultura, que aguardava apenas a acção
criadora para despertar e se vir manifestar à superfície.
Tactear uma exposição usando palavras é muito bonito, mas há coisas que só se sabe mesmo
sujando as mãos.
Jorge André Catarino, 2017
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