Teresa Pavão — A Fábrica

Esta é uma exposição inevitavelmente nostálgica. Primeiro porque se relaciona intimamente com o espaço e com o
tempo do lugar em que acontece e depois porque encerra um ciclo de uma década de trabalho da Appleton Square.
Aqui funcionou durante cerca de cinquenta anos uma fábrica de passamanarias frequentada por Teresa Pavão ao longo
da sua vida. Primeiro a curiosidade e mais tarde o seu trabalho na área dos têxteis trouxe-a inúmeras vezes a Alvalade,
ao no 27 da Rua Acácio de Paiva para comprar matéria-prima. Também a trouxe aqui a vontade de adquirir algumas
peças de mobiliário para o seu atelier-loja, quando soube que a fábrica tinha sido vendida e ia fechar.
Teresa Pavão é capaz de ser a única artista, dos mais de cem que trabalharam na Appleton Square, que conheceu e
estabeleceu uma relação com a fábrica. Que se lembra do barulho das máquinas, das cores dos fios, da beleza das
sedas. Que sabia os nomes das mulheres que ali trabalhavam, tantas vezes sem descanso, e que as guarda na memória
como símbolo do maior paradoxo daquele lugar, a austeridade do regime laboral que ali se praticava em oposição à
delicadeza de tudo o que ali se produzia. Que não esquece o silêncio que ditou o fim, o vazio das prateleiras que foi
acontecendo progressivamente. E que guardou com carinho grande parte desse património, que ainda hoje utiliza no seu
trabalho.
São então afectos que provocam esta exposição. E utilizo o plural porque existem neste caso dois tipos de afecto de
natureza absolutamente distinta, o do passado, de ligação à fábrica, e o do presente, de ligação à Appleton Square. São
afectos relacionados sobretudo com a beleza do ser e do fazer, inspiração fundamental para qualquer artista.
Arrisco-me a assumir que a força maior está no passado, mesmo representando o passado opressão e o presente
liberdade; é difícil resistir ao encantamento de (re)visitar o que já não existe. E é isso que Teresa Pavão nos propõe com
a sua exposição. Por um lado através das peças que coloca na parede: teares com fios de seda e outros materiais da
fábrica, que podiam ter sido produzidos ali mesmo, por outro através do dispositivo expositivo que desenhou, com a
máquina instalada na sala onde funcionou durante tantos anos, e a mesa, numa alusão a uma linha de montagem, sobre
a qual mostra as “molduras” que completam as peças expostas e as transformam em caixas de luz. A sala de baixo
atribui à exposição uma dicotomia interessante: ali Teresa Pavão relembra-nos o presente, para que não nos
esqueçamos que estamos numa galeria, muito especificamente na Appleton Square, espaço expositivo com o qual
mantém esta ligação de afecto e continuidade. E fá-lo através de uma encenação assumida e eficaz em que expõe o
“produto final” da fábrica – a sua “obra de arte”.
Torna-se assim evidente que a criação artística de Teresa Pavão, é, neste caso, impulsionada pela ligação ao lugar, não
na dimensão formal enquanto espaço expositivo, mas numa outra dimensão, desta vez emocional, de memória e
sentidos ligados a um tempo que já acabou. É portanto impulsionada pela “nostalgia do lugar”, esse lugar que se
transformou e se libertou, mas que, como sentimos nesta exposição, manteve o seu encanto, a sua magia, a sua vida, o
seu ritmo, as suas cores.
Vera Appleton, 2018
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