Adelina Lopes — 254 Objectos

À entrada no cubo branco que constitui o espaço expositivo da Appleton Square, o espectador é confrontado com um conjunto de estilhaços de vidro espalhados desordenadamente no chão. Esta suposta anarquia existe apenas numa observação superficial da obra. Examinando a escultura com maior cuidado, apercebemo-nos de que estes fragmentos se encontram dispostos de forma absolutamente simétrica e calculada. Nenhuma peça é colocada ao acaso, como se de um puzzle se tratasse. Se se pudesse ver a obra de uma plataforma elevada, então avistaríamos um desenho semelhante às manchas dos teste de Rorschach (um exame utilizado por psicólogos para determinar tanto a personalidade como processos de pensamento).

Nas paredes em torno desta escultura, encontram-se desenhos que, de certa maneira, cartografam o processo de criação da obra: a implosão de formas abstractas no desenho, alguns dos quais são mais tarde transferidos para a terceira dimensão. O processo pode também ser o inverso: a explosão das formas inspira posteriormente desenhos de esculturas impossíveis. Os títulos dos desenhos referem-se ao número de elementos que os constituem.

Reflectindo sobre estas obras, um dos conceitos que parece informá-las é o do ‘informe’ proposto por George Bataille. Para este filósofo francês, o informe era em si uma forma que encapsulava tudo aquilo que escapava à forma. É a arbitrariedade, a impossibilidade, o não-evento que a forma esconde. Se o campo da arte, especialmente pensando na abstracção, se tem constituído como uma batalha entre a forma e o conteúdo, o informe assume-se como uma maneira subversiva e transgressiva de ultrapassar essa dicotomia de categorias.

Adelina Lopes liquidifica e esvazia o conteúdo e a cor da forma; retira-lhe um sentido imediato. As associações imagéticas que possam surgir, acontecerão na psique de cada espectador. As suas obras reflectem sobre uma sociedade saturada de imagens e de formas, apresentado ao invés obras assentes na simplificação e economia. Contudo, o caos que possam aparentar firma-se em trabalhos determinados por uma enorme precisão e rigor.

As obras de Adelina Lopes lembrando algumas peças de chão de Robert Morris, adoptam uma lógica fracturante, horizontal, a qual não contitui uma perda de forma, mas antes uma nova maneira de pensar e olhar o sem-forma. FO

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /