Albano Silva Pereira — Uma faca na areira
Embuste
Quando falo ou escrevo de terceiras pessoas nunca gosto de as tratar pelo primeiro nome. É excessivamente coloquial, familiar e até pode ser desadequado, penso eu. O João, o António, a Alice… mas o Albano é uma excepção. Não há outra maneira de o tratar que não seja assim…
É um indivíduo bipolar, social mas esquivo, que tão rapidamente está visível como desaparece como que por mágica para se perder entre o deserto do Arizona e as estepes do Sahara setentrional, colhendo cactos e recolhendo meteoritos, afiando facas e roubando a alma às pessoas que vai encontrando no caminho.
Ele é como um repórter de guerra sem despojos. Por isso mesmo os diversos campos de batalha cria-os ele próprio, com imagens que se repetem, se reciclam, se transformam , se devoram e configuram inúmeras histórias diferentes. As imagens do Albano são docemente contraditórias. Com uma inocência quase desarmante confunde o espectador com realidades paralelas, com mentiras que são verdades, com verdades que parecem mentiras, com imagens reais que parecem sonhos mas sempre com a orgulhosa ostentação duma violentíssima verdade. Quer ela seja doce, quer amarga.
As imagens do Albano nunca são uma coisa só. Multiplicam-se, repetem-se e reciclam-se com uma velocidade estonteante e sem qualquer respeito pela cronologia. Como deve ser. E lá estão os textos, quase sempre. Que por vezes dizem tudo e outras vezes dizem nada. São oferendas, dádivas, despudoradas demonstrações de afecto quase sempre. Nunca são ilustrativos, nem demonstrativos, nem literais. Não são descrições ou legendas da realidade que os circula mas ditam tudo o que deles se apercebe. Determinam o que vamos ver na imagem que os completa. Já vi exactamente a mesma imagem com intervalos de vários anos. Exactamente a mesma! As imagens podem ser sempre iguais mas no entanto irrepetíveis. Mas a força do contexto e a determinação imposta pelo texto conferem-lhe significados por vezes totalmente diferentes e até mesmo antagónicos. O Albano engole as imagens e recicla-as anos depois de digeridas pela primeira vez e as velhas imagens são agora novas fotografias. Com a mesmíssima força. Com mais sabedoria. E as fotografias podem ser doces e cruéis, exercícios de pudor ou pornográficas mas são sempre, sempre profundamente solitárias. O Albano é um fotógrafo solitário cheio de gente ao pé. E às vezes desaparece…
Não há muito mais a dizer sobre este coleccionador de afectos e de ódios. Está tudo aqui. Nas imagens que apresenta. E ele cuida dos afectos e dos ódios com a mesma estima e o mesmo cuidado. Não os deixa fenecer. Fotografa-os e alimenta-se deles para criar este poderosíssimo banco de imagens que, no fim de contas são o seu próprio corpo. Nunca cria ficções porque ele próprio é uma figura de ficção.
E depois o Albano aspira quase sempre o nosso ar com sofreguidão. Rouba-nos o alento. As suas imagens configuram, muitas vezes, uma ofegante e desesperada violência, um supremo exercício de solidão na solidão. O ar esvai-se-nos, pouco a pouco, devagar, lentamente. A nossa respiração é cortada e, inadvertidamente, enchemos o peito com todo o ar que ainda nos rodeia. Criamos o vácuo à nossa volta. E, no vácuo, qual vai cair mais depressa? A faca, o cacto, o meteorito ou a imagem?
Julião Sarmento
Fevereiro 2013
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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