João Seguro — Um dia de chuva

Algumas observações acerca de um dia de chuva

Em 1857, Hiroshige, um dos mais importantes gravadores nipónicos do séc. XIX, gravou uma pequena imagem de título “A Grande Ponte, Aguaceiro Repentino em Atake (The Great Bridge, Sudden Shower at Atake)”, imagem integrante de um conjunto de cem vistas do período Edo. Esta gravura, que viria a ser utilizada por outros pintores como exemplo compositivo do género e pela intensidade paisagística, apresenta uma ponte sobre um rio e um conjunto de cinco figuras que a atravessam durante um aguaceiro intenso. Esta chuvada é, como o título da peça indica, intermitentemente com a ponte, o elemento mais importante da imagem, tendo-se tornado num componente gráfico de enorme consequência, pois é no Ukyio-e de Hiroshige que nasce o carácter serial e massificado da gravura comercial e a manga do séc. XX.

Em 1880, Édouard Manet pintou um pequeno molho de espargos. Esta pintura foi vendida a um coleccionador por 800 francos e este, por engano ou filantropia, enviou 1000 francos ao artista que lhe devolveu a demasia sob a forma de uma pequena pintura de um único espargo. Esta situação, fez com que um pequeno exercício de estilo se transformasse numa das mais arrojadas peças de arte política pelo eficaz comentário que a transacção permitiu ao artista fazer. A arte e a prática artística são constantemente invadidas pelo espectro do dinheiro e não raras vezes as artes dialogam com a realidade socioeconómica em termos mais ou menos simpáticos e insinuantes, demonstrando que a prática artística e o dinheiro coexistem como o cavalo de Tróia exemplar um do outro.

Em 1904 Max Weber publica a sua justificação das origens do capitalismo moderno e explica-nos a sua proveniência social, ideológica e religiosa. Ainda hoje, em países de tradição Protestante, mas também nos países de herança Católica, encontramos muros de pedra solta, daqueles que dividem eternamente o nosso interior rural. Alguns desses muros dividem o espaço de forma escrupulosa e minúscula, outros apenas marcam os termos indistintos e irrelevantes de uma grande propriedade; ambos descrevem modelos sociais que nos ajudam a conhecer alguns aspectos do mundo de hoje.

No dia 10 de Junho de 1811, o capitão James Tillard avista a formação de uma ilha a partir da actividade vulcânica existente ao largo do arquipélago dos Açores. Dias depois de avistar esta formação e de acompanhar o desenvolvimento desta ínsula, mais precisamente no dia 4 de Julho, coopera com o cônsul William Read com o intuito de aportarem na formação e hastearem a bandeira do império britânico. A ilha, não obstante o seu rápido desenvolvimento, acabou por desaparecer e frustrou as expectativas dos pretensos colonos, sem território não pode haver disputa territorial.

Em 1948 Barnett Newman pinta ”Onement, I” aquela que viria a ser considerada por si mesmo como a sua primeira obra importante. Nesta peça o artista recorta uma pintura monocromática vermelha de 70 cm de altura por 40 cm de largura, com uma tosca linha vertical que amputa o plano homogéneo da pintura. Dois anos mais tarde, em 1950, pinta “Vir Heroicus Sublimis”, uma obra de grande porte na qual inscreve cinco linhas verticais que cortam o território e que afirmam a necessidade de reconhecer limites para conhecer a extensão.

Em 1949, o historiador Arthur Schlesinger publica o livro “The Vital Center: The Politics of Freedom”, um importante texto acerca da importância da construção de uma certa ordem social conseguida sob a influencia de uma economia regulada pelo estado e sobre a utilidade de uma democracia liberal como forma de conseguir desenvolver uma utopia democrática. A primeira edição deste livro, publicado em Boston pela Houghton Mifflin Company, usa como imagem de capa uma representação de um fundo monocromático cinzento sobre o qual algumas linhas verticais que lembram a estrutura das pinturas de Barnett Newman são cortadas por uma linha horizontal que nos orienta para o encontro visual com as suas conjecturas ideológicas.

Todas estas menções são meramente indicativas e não pretendem demonstrar qualquer espécie de ligação calculada entre pessoas, acontecimentos ou suas obras.

João Seguro
Abril 2013

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /