Vasco Barata — Les Apaches

A estética da violência é um assunto delicado. Para começar, é delicada a fronteira entre as noções de estética da violência e de estetização da violência. Pese embora a singeleza dessa linha, ela separa dois regimes absolutamente distintos no que ao uso dos recursos sígnicos da visualidade diz respeito. O primeiro fabrica, de forma mais ou menos contingente e com intuitos práticos, um conjunto de códigos que representam ou projectam identidades beligerantes. Os exemplos desta postura são inúmeros, estão largamente disseminados no nosso quotidiano, e compreendem exemplos como os tags[1] que definem territórios de influência criminal em todas as grandes metrópoles do mundo, passando pelos códigos de indumentária de gangs rivais, pelos aglomerados de tatuagens que, como uma linguagem subterrânea, estabelecem hierarquias intra e intergrupais, chegando às práticas tuning[2], às coreografias levadas a cabo pelos frequentadores das micaretas de feira no Brasil ou mesmo ao calão empregue nas letras de músicas funk, crunk ou snap[3] que podemos acompanhar em qualquer transmissão das estações de rádio nacionais. O segundo regime que mencionámos, por seu lado, investe numa glorificação da violência por via da sua transformação num puro espectáculo, tenha ele objectivos estritamente lúdicos – como no cinema –, essencialmente económicos – como em algumas áreas do desporto – ou declaradamente ideológicos – como na generalidade da propaganda extremista. Em certo sentido, então, e embora partilhem o espaço público da cidade, o que a estética da violência tem de secreto, velado ou inesperado, a estetização da violência tem de declarado, assumido ou coreografado. Como dois polos em tensão, estas duas vertentes estabelecem os limites de um território onde se processa um conjunto de fenómenos determinantes no que à construção e à expressão de sentidos comunitários diz respeito. A exposição que Vasco Barata agora apresenta trata desta mesma tensão na forma de uma estrutura elíptica, onde a sugestão e a ambiguidade são mais do que meros gatilhos para a produção de sentido.
À imagem do que acontece com a maioria das manifestações organizadas de violência a que aludimos acima, também esta exposição dispõe das suas referências e da sua mitologia original. “Les Apaches”, título desta primeira colaboração do artista com a Appleton Square, é o nome pelo qual era conhecida uma estirpe peculiar de delinquentes e criminosos que aterrorizaram as ruas de Paris durante o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX. Um produto da crescente colisão social promovida pela explosão das grandes cidades, “Les Apaches” ganharam esta denominação graças à comparação entre a astúcia e brutalidade dos seus ataques concertados e a imagem que a população francesa entretinha dos nativos do Novo Mundo. Não obstante a sua actividade subterrânea e à margem da lei, “Les Apaches” foram alvo de uma inesperada atenção quer por parte de uma imprensa crescentemente empenhada em sensacionalismos, quer por parte de um conjunto não despiciendo de intelectuais da época. Para a imprensa, bem como para o folclore popular, estes grupos eram fieis depositários de uma exótica imagem do perigo, da agressão e da sobrevivência, mas também da irresistível expressão de uma identidade grupal e, sobretudo, de uma noção visceral de liberdade. Se os relatos das suas façanhas eram instrumentais no estabelecimento desta imagem, não menos o seria a cuidadosa construção de uma identidade estética que passou pela determinação de um conjunto de normas e de procedimentos que nada ficam a dever à ideia de estilo: preferência pelo uso de calças justas nos tornozelos, chapéus e camisas listadas; um apreço por faixas coloridas, uma obsessão por sapatos engraxados; um cuidado especial na criação de estratégias de assalto como na concepção de danças ritualizadas; o desenho de armas e de técnicas de submissão e uma predileção por tudo o que facilitasse uma vivência boémia.
“Les Apaches” eram, simultaneamente, o produto acabado da Belle Époche e o seu pior pesadelo. Curiosamente, ou talvez nem tanto, o que interessou sobremaneira o grupo de intelectuais a que acima aludimos não foi exactamente a inusitada sofisticação do aparato apache, mas o facto de ele sebrutal entre duas facções opostas, o lugar da sua dissolução mútua. O nome vanguarda vigorou e fez sentido porquanto esr totalmente vocacionado para abalar as florescentes estruturas da burguesia parisiense. A aproximação de Charles Baudelaire a este grupo foi, como notou Walter Benjamin[4], alimentada pelo fascínio do poeta por personagens marginais e pelo modo como eles encarnavam o espírito moderno naquilo que este tinha de mais radical: o seu absoluto desdém pela consciência moralista, normativa e doutrinária que exalava da classe burguesa. O delinquente era para Baudelaire o primeiro dos revolucionários, o herói furtivo acometido do impulso inalienável para estilhaçar a imagem de unidade, verdade e progresso que o positivismo servia à população em doses homeopáticas. Para lá da sobrevivência imediata ou da simples reivindicação do direito ao luxo, a sua verdadeira missão era rasgar o contrato social e inscrever no tecido cultural burguês a fórmula da sua própria dissolução. A violência não era apenas o seu método; a violência era também o seu conteúdo.
No plano cultural, mas também no plano político, a história desta violência tem um nome: vanguarda. Denominação de origem militar, vanguarda designa esse confronto te confronto agiu sobre a base de uma oposição ideológica perfeitamente delineada. Não será por acaso que a segunda referência que atravessa esta exposição seja o grupo que, sob o nome de Indiani Metropolitani, simboliza uma das últimas vagas da energia insurgente do Maio de 68. Tendo tido o seu momento de maior influência social entre 1976 e 1977, aquela que era tida como a facção criativa dos movimentos de extrema-esquerda e anarquistas italianos da época, compunha-se de elementos que tomavam parte em acções públicas envergando adereços índios, mostrando faces pintadas e transportando totens. Passe a referência primitivista, o recurso ao poder agregador do totem no quadro de uma sociedade ocidental a lidar já com os sintomas da sua intrínseca decomposição ultrapassava em muito o limite do expectável no campo da reivindicação simbólica. Dez anos depois, o assunto estava definitivamente arrumado e a geografia política em que nos inscrevemos estava órfã de facções, de confronto, de vanguarda e, de certo modo, de violência. A violência de hoje, dizem-nos, é “desideologizada”, é coreografada como um arrastão e estetizada em sucessivos close-ups; é sintoma de um mal-estar difuso que não se consegue enquadrar, interpretar ou dirigir. E é paradoxal, também, porque mede a urgência de abrir feridas na bitola da ausência clara de um alvo definido.
A exposição Les Apaches é concebida por um artista formado na ressaca da desintegração das grandes narrativas ideológicas. Não é coincidência que tenha acolhido outros criadores na mesma condição para construir esta experiência. A noção de grupo, já se viu, é fundamental neste exercício. Particularmente quando este exercício implica desenhar caminhos num campo minado pela urgência de reagir e de reconstruir o sentido comunitário que o esboroar ideológico parece ter deixado para sempre vago. Não obstante, no quadro do simulacro em que a acção política se tornou, e face à imagem do seu esvaziamento substancial, esta reacção implica uma abordagem capaz de curto-circuitar todo o fluxo retórico. Nem espanto nem adormecimento – a ambiguidade, a imaginação e o estranhamento a abrirem um campo franco à experiência sensível, o lugar onde a poética se agita, o intervalo onde a subjectividade perdura. No plano da sugestão, não uma resistência panfletária mas uma indução biopolítica. E finalmente o belo, a instrumentalizar a violência… Atentemos então num edifício em ruínas. À sua porta uma pedra falhada. No seu interior um lustre caído.

Bruno Marchand, Maio 2013

[1] Assinaturas graffiti também conhecidas como pichações.
[2] Alteração das características mecânicas ou formais de um automóvel com o intuito de incrementar a sua performance ou a sua aparência.
[3] Subgéneros do hip-hop conhecidos pela agressividade e misoginia das letras que produzem.
[4] Cf. Walter Benjamin, The Writer of Modern Life: Essays on Charles Baudelaire, Harvard University Press, Cambridge MA, 2006.

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /