Jeanine Cohen — Slipped Between
O espaço do lugar
Por mais que seja comprovável que num espaço circunscrito existem relações métricas de harmonia entre as suas diversas partes, efeitos simétricos, isomorfismos, disposições de perspectiva inusuais, especificidades arquitectónicas, estas particularidades não conseguem explicar a fascinação que destilam alguns lugares concretos, nem podem explicar a causa de certas sensações (ou até comoções) que estes podem provocar a quem com eles se relaciona 1 (Maderuelo, 2008:23).
É aqui, neste sobrevir da afeição, que reside a principal diferença entre espaço e lugar: o lugar é espaço liberto do que há de tenso na sua realidade física. As exposições de Jeanine Cohen acontecem sempre em lugares, porque a sua obra é dotada desta potência transformante e libertadora. Há, entre os seus trabalhos e o espaço que os acolhe, uma relação empática que não resulta de uma simples progressão aritmética – em que cada termo é igual à soma do anterior com uma constante -, mas do efeito multiplicante da correspondência entre obra(s) e espaço.
Na exposição Slipped between, que a artista belga apresenta na Appleton Square, assistimos, exactamente, ao surgimento desta dinâmica relacional. A cor, o tempo, o espaço e a luz, as diferentes formas e condições em que estes elementos encontram expressão, servem de força motriz ao desencadear de jogos perceptivos múltiplos em que a percepção se insurge enquanto processo sensorial e emocional.
No piso térreo, é apresentado um conjunto de peças que acompanham as condições arquitectónicas do espaço. Estruturas de madeira, numa clara referência à grade, e também à moldura, são seguidas por desenhos a grafite na parede (procedimento recente na obra da artista), conformando as disposições angulares entre as várias acções plásticas e as presentes na arquitectura que as antecede. Há, nestas estruturas, dois aspectos fundamentais. Em primeiro lugar, a importância que a ideia de construção da pintura tem no trabalho de Jeanine Cohen; em segundo, a forma como a cor ultrapassa aquilo que parece ser o limite da obra, tornando-se ubíqua.
A (aparente) ausência de tela, a tridimensionalidade dos módulos em madeira, acentuada pela distância que guardam da parede, a dimensão das peças (as apresentadas nesta exposição são maiores que as habituais no seu corpo de trabalho), podem levantar dúvidas relativamente ao seu estatuto – a pintura. Mas Jeanine Cohen é sempre pintora. Os usos que faz da cor, mais, ou menos expansivos, da sua relação com a luz, denunciam a natureza profundamente pictórica do seu trabalho. Ao pintar o lado posterior dos módulos que compõem as suas obras, permite que a, sempre discreta, complexidade cromática dos seus trabalhos, se vá desvendado lentamente, consoante o comprimento de onda, o feixe de luz (solar), as condições do espaço que a abriga. É neste contínuo de espaço e tempo que a sua obra se revela.
No piso inferior da galeria, acontece o outro momento expositivo, em que, de certa forma, se enfatiza uma das premissas essenciais da obra de Jeanine Cohen: não há espaço, na acepção de vazio, entre as obras, todas as dimensões do lugar são convocadas para, num equilíbrio equitativo, se produzir um significado conjunto. A parede frontal está pintada de vermelho, mostrando como a superfície, neste caso a parede, sobre a qual as diferentes estruturas se movimentam, faz parte da acção criativa.
O título Slipped between, para além de síntese desta dinâmica de contaminação, funciona também como um apelo para que o espectador se deixe envolver por este nexo de relações, escorregando por entre o lugar em que Jeanine Cohen transformou a Appleton Square.
Ana Cristina Cachola (Dezembro de 2013)
créditos © photodocumenta
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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