António Bolota — Falésia
Curadora: Sara Antónia Matos
Antes da hora marcada…
Entrei no espaço da Appleton Square sozinha, dei alguns passos e fui parada por uma parede branca erguida à minha frente, a meio do cubo-branco. Tive vontade de sorrir. Não que a obra de António Bolota tenha alguma coisa de hilariante. Pelo contrário. A vontade de sorrir surgiu de uma experiência desconcertante; senti-me como que apanhada ou ultrapassada pelo artista.
Para se perceber o porquê desta sensação talvez tenha de explicar que houve uma reviravolta no decorrer do projecto, já durante o período de construção da peça, que fez com que o artista tivesse transformado a obra.
Embora aquela reviravolta não me fosse desconhecida, o facto é que o confronto com aquela parede massiva, branca, elevada em altura, de recorte perfeito, me pôs os pés à procura de chão firme. É isso que geralmente acontece à beira de um precipício ou junto de uma falésia, mas aqui, o confronto do indivíduo com a altura da parede, dá-se de baixo para cima, fazendo-nos levantar a cabeça, ao contrário dos precipícios em que olhamos para baixo. A sensação massiva oferecida pela construção e a nossa pequenez perante a mesma são reforçadas por um elemento intrigante (encastrado no muro), o qual, sendo do nosso tamanho, fornece um parâmetro de medição face à extensão da parede. Trata-se de um tapume de barrotes e tábuas de madeira, usados na própria construção da peça, a qual exigiu algumas toneladas de betão e armadura de ferro. O elemento bloqueia o buraco que permitiu a entrada dos trabalhadores nas “entranhas” da construção durante o seu erguer. O artista permite que observemos estas “entranhas” apenas por duas frestas laterais, da largura de um dedo, cada uma em extremos opostos da parede. Lá dentro, na penumbra: a brutalidade da construção, a crueza das matérias, a irregularidade do reboco de cimento e uma lâmina aguçada, em aço, que atravessa de ponta a ponta a base desta caixa, pronta a ferir o que nela caia. Mas o quê?
Na verdade, de dimensões avantajadas, a obra de António Bolota conserva sempre esta relação com o corpo: com o seu corpo, com o dos trabalhadores e com o nosso enquanto espectadores. Contudo, pese embora esta relação corporal sempre implícita nas suas construções, na maior parte das obras de António Bolota somos colocados como que à distância, não só porque as obras nos chamam sem nos deixar entrar (através da sugestão de portas, rasgos, buracos, rampas), como nos incitam a observar o interior sem tudo nos dar a ver (através de frestas, de pontos de acesso visual aos núcleos ou da “carne” das construções à vista). Mas, se estes factores são importantes na experiência das obras de António Bolota, haverá outro aspecto determinante que nos mete como que em sentido, em respeito: a dimensão das peças, a quantidade de massa que as construções envolvem e que, na maior parte das vezes, excede a nossa capacidade braçal.
Assim, a obra deste artista envolve uma espécie de paradoxo, que reside na concretização do que parece impossível, fazendo isso parte da sua linguagem interna.
A sensação desconcertante provém, portanto, de todos estes aspectos mas, sobretudo, porque a obra que encontrei já não é a que estava inicialmente prevista e que o artista começou a construir na Appleton Square, mas sim uma outra, mais subtil, poderosa e inteligente que a primeira, a qual previa o derrube da parede.
Porque é que esta é mais forte que a obra inicialmente prevista?
Justamente porque é mais subtil. Porque deixa o espectador em frente de uma experiência inacabada, em suspensão.
Porque a obra, no seu desenho perfeito e nas suas entranhas à vista, como que coloca um problema à experiência, uma interrogação.
Porque deixa espaço para reconstruir mentalmente o processo com que o artista se debateu, transferindo para nós, através da sua pele estucada e do seu interior rugoso, um conjunto de emoções extremas, belas, violentas, sublimes. Desse modo, tornamo-nos parte da peça.
Porque assume e integra todas as transformações ocorridas sem as escamotear.
A obra desconcerta porque, com o seu muro, levanta uma estranheza, uma estranheza que não se revela, que não se torna explícita, que por princípio é inerente à obra de arte.
Porque dá conta ainda que um processo artístico é feito de negociações, recuos e avanços, momentos irrepetíveis e decisões intuitivas – o que lhe confere um carácter absolutamente político.
Talvez isto responda à questão que deixei no final do texto Um poema ao espaço branco*, escrito para a primeira versão da peça: «O que significa fazer escultura, hoje?».
Talvez esta peça de António Bolota – não a outra, mas sim esta –, inteiramente concebida, feita e reelaborada neste cubo-branco, possa fornecer uma primeira resposta: fazer escultura hoje significa afirmar um posicionamento sobre o valor e o lugar do corpo, sobre o saber fazer material e conceptual, sobre as decisões envolvidas na obra de arte, das quais fazem parte integrante uma reelaboração permanente dos projectos e dos processos de construção artística – algo que aqui aconteceu. Como deixa entender Richard Serra a propósito de uma das suas esculturas removidas do espaço público, o carácter político da escultura, sobretudo hoje, provém de um combate inerente à densidade, ao peso e ao tempo que esta disciplina exige; reflecte o conflito com uma sociedade numérica e informatizada, onde o saber fazer, a materialidade, o valor do corpo se levantam contra uma fugacidade generalizada.
Desço as escadas para o piso inferior da Appleton Square e sinto-me ultrapassada mais uma vez. Sou barrada novamente, outra vez por uma cofragem de madeira e barrotes (com a mesma linguagem e elementos do tapume superior) que me impedem de ver o vídeo que estava destinado ao piso subterrâneo. A intervenção está agora completa. Se o vídeo continua a correr lá dentro, não sei. Sei que a peça, mais que inicialmente, menos explicitamente, continua a ser um poema ao cubo-branco. Na verdade, a peça não é autónoma do edifício, pelo contrário, existe em continuidade com ele, faz parte da sua estrutura arquitectónica. E nós somos um organismo vivo que se passeia por dentro desse corpo. Ao mesmo tempo que a construção nos veda a passagem para os espaços, já nos prendeu na sua trama; no momento em que nos mete do lado de lá, no interior das construções, já nos expulsou das suas entranhas.
Saio da Appleton Square – talvez devesse dizer da obra em si – e volto a entrar pela porta, com o artista, à hora marcada. Sobre a vertigem e o impacto que a parede me causou entretanto, nada lhe contei.
Um agradecimento especial a Vera Appleton, a quem se deve em parte a concretização do projecto, pela sua persistência e entusiasmo.
13 de Abril de 2016
créditos © photodocumenta
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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