Alexandre Conefrey — Fear Knot Fear
What we do is what we feel.
– Agnes Martin
Nem tudo o que está sobre o papel é desenho e nem sempre o papel é apenas suporte, afirma Alexandre Conefrey. E um artista não tem que fazer sempre o mesmo.
O papel é uma potência e cada suporte um território precedido de ideias, normas, modos e procedimentos a serem desfeitos, desmontados. Para que do suporte, no seu encontro com o artista mediado pela técnica e pelos materiais, resulte, se revele, se actualize por via de um fazer, um sentido ( do que se sente – sensação, e do que se significa – significado). Materializado por um processo, em forma. Essa é a tarefa do artista e é rigorosa: encontra um método e conjura um caos. Deste nasce um mundo como uma nova unidade de sentido.
Alexander Cozens, nascido no ano de 1717 na Russia e treinado como pintor em Inglaterra e Itália, é o autor de quatro grandes tratados sobre aquilo a que se chamou uma estética prática. Entre estes, encontra-se o estudo publicado em 1759 “An essay to facilitate the Invention of Landsk(a)ps, intended for students in The Arts”, que voltou a ser publicado em 1785 sob o titulo “A New method of Assisting the Invention in Drawing Original Compositions of Landscape”. Este estudo reúne um conjunto singular de indicações que introduzem na História da Arte – séculos antes das Chance Procedures do compositor norte americano John Cage (1912-1992), uma metodologia que o próprio designou como “a production of chance with a small degree of design”. O novo método visava a criação do blot : um desenho rápido e expressivo, tendencialmente abstracto, como base para a construção de uma paisagem finalizada de acordo com os parâmetros do mais delicado realismo paisagista. O blot, é simultaneamente o catalisador de um processo e a singularidade e potência expressiva da paisagem final.
O sublime, teorizado desde a antiguidade em franca afinidade com a reflexão sobre os fenómenos naturais, é essencialmente utilizado para referir uma ordem de grandeza que supera toda a possibilidade de cálculo, medida ou imitação. O que, consequentemente, escapa aos limites da representação, tendendo para uma estética do excesso ou da não-representação.
Os trabalhos que Alexandre Conefrey mostra em Fear Knot Fear são o resultado de uma metodologia rigorosa, incorporando o sublime em vários exercícios de uma estética prática que parte da experiência da natureza – o medo na floresta, num processo de produção da forma incorporando o acaso, fazendo acontecer sobre o papel aquilo que se sente.
E o medo é sempre um excesso, uma desmesura ou desadequação em relação ao familiar, ao presente, ao íntegro e ao comum.
Primeiro, Conefrey reuniu materiais relacionados com a experiência para que remetem: são feitos com carvão, de e com a gravidade, da pressão e do estalar da madeira queimada, feitos pelos aglomerados de pasta e carvão colados, feitos de trilhos marcados pelas escorrencias da água sobre a superfície pintada. Ou de grafite. Os desenhos feitos a grafite introduzem no conjunto, recorrendo ao papel branco como fundo de uma figura, o elemento luminoso. E porque a luz pertence ao regime do esclarecimento, as figuras revelam as formas e texturas construídas na superfície dos demais trabalhos.
Depois, nos trabalhos de menor dimensão, sobre esse fundo luminoso (do papel) o artista colocou um enquadramento, um limite formal para delimitar um campo de acção, ou revelação pelo processo. Dentro deste, ou a partir deste dentro do enquadramento, produziu superficies monocromáticas, negras, cujas formas, figuras e desenhos – algo como blots em bruto ou puras potências, instauram processos de relação diferencial.
Em 2013, o trabalho de Jonathan Crary, 24/7 Late capitalism and the ends of sleep, reuniu um denso estudo versando a sobre-iluminação do mundo como projecto politico e social do capitalismo, cujo modelo de uma visibilidade total é correlato à uniformização dos ciclos naturais, dos espaços e das temporalidades da experiência por subjugação à produtividade. “Um mundo 24/7 é um mundo desencantado pela sua erradicação das sombras e obscuridade e temporalidades alternadas. É um mundo idêntico a si mesmo, um mundo com o mais superficial dos passados, e por isso, em principio sem espectros. Mas a homogeneidade do presente é um efeito da luminosidade fraudulenta que presume prevenir qualquer mistério ou habilidade desconhecida”.
Pela monocromia negra, no escuro, os desenhos de Conefrey, constituem densidades povoadas de texturas, de velocidades e abrandamentos, superfícies brilhantes e rugosas, bloqueios em aglomerados e fluxos em escorrências. Revelando uma experiência da natureza, do medo e do sublime, e dos espectros que os povoam, e nos povoam, das forças maiores que superam o conhecido e o já representado, das sombras e das formas que as habitam.
Verónica Metello
Lisboa, Junho 2016
créditos © photodocumenta
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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