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Fernanda Fragateiro —Materials Lab
MATERIALS LAB. UM ESPAÇO DIFERIDO
David Barro
Fernanda Fragateiro confere uma dimensão poética à documentação, fazendo-o de uma forma densa, apesar de paradoxalmente leve na sua apresentação. A fragilidade de muitas das suas obras é aqui extrapolada ao conceito, numa obra na qual o importante é o relacional. Porque Materials Lab é uma espécie de anti-monumento, uma questão aberta ou descoberta que permite distintas derivações do pensamento para construir novos modos de entender os seus trabalhos e, neste sentido, o mundo. Para tal, a artista une o pré-discursivo ao pós-discursivo e, neste contexto, a obra posiciona-se no meio e é agora o que se encripta, o que nos escapa. Como um puzzle sem imagem definitiva onde o vazio actua como elemento desencadeador. Porque em Materials Lab a documentação é uma obra em si mesma. A artista coloca novos enigmas com pistas que expandem o mistério, em vez de o revelarem de forma definitiva, levando o espectador a uma série de encruzilhadas entre o que se recorda e o que se esquece, entre o que se escava e o que sobrevive à superfície.
É interessante quando os artistas deixam emergir o submerso. Os últimos anos pautaram-se por uma maior necessidade de apresentar dispositivos capazes de revelar a documentação ou métodos usados pelos artistas para chegarem a uma obra final, cada vez menos fixa e mais performativa. Porque a forma de um trabalho pode modificar-se continuamente e não apenas aos olhos do espectador, como podemos ver neste arquivo contínuo que confere outras vidas a obras virtualmente concluídas pela artista. Naturalmente, não falamos tanto de revolucionar as técnicas como de revitalizar os formatos e, neste sentido, Fernanda Fragateiro consegue outorgar o estatuto de work in progress ao conjunto do seu trabalho, pensando no sentido dos objectos, nas histórias que foram investigadas e nas outras que também o poderiam ter sido. O que se encontra encerrado revela-se aqui, devolvendo-nos ao lugar da aprendizagem, da experimentação. Nas palavras da artista, “trabalha-se com o significado como material e utiliza-se o material como significado”.
Materials Lab é tanto uma obra aberta como uma obra em suspensão. Materiais como linhas, recortes de revistas, fotografias, cadernos, fragmentos de muros, desenhos-texto ou, inclusivamente, pinceladas, constituem uma espécie de arquivo pessoal aberto ao mundo. No entanto, para além dos achados e dos materiais seleccionados, é importante valorizar os vazios, aquilo que permanece entre parêntesis. Não são poucos os poetas convictos de que a palavra poética começa justamente onde o dizer é impossível. Penso em Marcel Broodthaers e na sua decisão de não fazer objectos. Ir para além das palavras, das imagens, é embarcar na aventura da criação. Daí que a importância do que se desfaz, do que se desfia e do que não se acaba de produzir também faz parte da equação da arte, como a parede que serve de suporte aos quadros, esse contexto que muitas vezes acaba por converter-se em conteúdo. O que está ausente permite auscultar aquilo que se vê, dar-lhe sentido, provocar tensões, pois as caixas que contêm materiais são também caixas capazes de albergar espaços vazios. Materials Lab é o espaço como ausência pura capaz de permitir todas as presenças, como esse nada criador de que nos fala María Zambrano, já que este projecto nos fala de materiais e imagens, mas sobretudo do tempo, da memória, do processo. Estas caixas são, antes de mais, espaços intersticiais, superfícies de trânsito entre o interno e o externo. As presenças são mínimas e a experiência, “infraleve”. O espectador deve deixar-se levar, exprimindo ao máximo a poética da imagem como observação e essa capacidade de trânsito entre as diferentes escalas, os tempos. É a informação como campo abissal, como revelação paradoxalmente impossível. Não há forma de aceder ao mistério total, pois qualquer aproximação significa, simultaneamente, um afastamento. Por isso, Georges Didi-Huberman assinala que, em muitos casos, ver é sentir que algo nos escapa, quando ver é perder. Fernanda Fragateiro também procura esse espaço vazio, um exercício que apenas fará sentido se conseguimos conectar algumas das suas muitas relações.
A artista convoca-nos para um exercício paciente que, como grande parte da arte contemporânea, se sustenta em processos de descontinuidade. Aqui, os materiais são fendas ao mesmo tempo que cenários, possibilidades. A energia deriva do choque, mas também da omissão. O conhecimento constrói-se de forma activa como numa qualquer experiência de colagem, igualmente consubstancial à arte contemporânea. A trama, descontínua, assenta na incerteza. Penso também no que Andrei Tarkovski refere nos seus Diários: “não teria podido viver sabendo o que a vida tinha reservado para mim. A vida perderia o sentido […] Se pudesse saber com segurança o que me iria suceder, qual seria o significado de tudo isto?”. Para Tarkovski, tudo está ligado de modo a que o nosso conhecimento seja incompleto, para não profanar o infinito. O sentido é a iminência de uma revelação que não chega a produzir-se. O mesmo podemos adivinhar nestas caixas ou pequenas arquitecturas do conhecimento de Fernanda Fragateiro. A janela está sempre entreaberta, mas nunca completamente aberta pois nunca poderemos apreender a história e a arquitectura do trabalho de uma forma completa.
Em Materials Lab, tudo está comprimido. A narrativa conjuga-se a partir do enigmático, a partir do quebradiço. Fernanda Fragateiro oferece um espaço para a experiência, mostrando-nos os vazios deixados pelo sentido literal. Assim, estes trabalhos formulam um vocabulário próprio próximo da poesia visual, ou da documentação poética. Evidentemente, os tempos da criação são irrepresentáveis porque não é possível desdobrar todo o conjunto de sensações, tensões e cumplicidades que ocorrem no acto de criar, o que faz desta uma narrativa armadilhada, uma falsa cronologia. O que nos é apresentado é um enunciado minimalista, poético, denso, sedutor, capaz de actuar como ressonância da experiência artística e – porque não dizê-lo? – de desarticular os limites e as normas da arte para piscar o olho ao indizível, ao que se oculta à superfície, com inesgotável capacidade de incitação.
Compreendemos assim que uma obra é uma dialéctica de cruzamentos, uma espécie de tecido aberto a diferentes interpretações. Materials Lab configura-se como um arquipélago de conceitos que se nos oferecem como fendas de sentido, como pregas de conhecimento. A informação é oferecida ao mesmo tempo que se retrai, que se concentra. Formalmente, apresenta-se como uma espécie de minimalismo poético, embora obedecendo sempre a uma série de camadas, como um palimpsesto infinito que nos leva a uma trama sempre inconclusiva e à procura de novas leituras. Porque o próximo se conjuga com o encriptado e os materiais e as imagens se tornam ao mesmo tempo num território de sombras que é necessário interpretar.
Fernanda Fragateiro incita-nos a olhar através do trabalho e não tanto para a obra em si. O que se propõe é, assim, uma leitura capaz de deslizar por entre as fendas para apreender o aparentemente aleatório, alternativo, transversal. Trata-se, sem dúvida, de uma busca afortunada do experiencial e do relacional que não anda longe das suas intenções em obras anteriores como Caixa para guardar o vazio (2005), um paralelepípedo de madeira que pode funcionar aberto ou fechado, hermético mas com janelas e capaz de abrir-se ao exterior como quem abre gavetas de um armário. O sensorial e o performativo expandem a sua condição monolítica e levam-nos a habitá-lo a partir da experiência. No fundo, isto é o que também nos propõe Materials Lab. Em ambos os casos, trata-se de explorar, de habitar a obra, de apreender o háptico a partir do fragmentário, a partir do penetrável, a partir do participativo. Tudo sugere uma passagem a outra coisa, entre o representado e o real, entre o interno e o externo, entre o material e o processual. O espaço prolonga-se, o espectador especula. E é nessa condição relacional que encontramos a ecologia emocional que Delfim Sardo define ao escrever sobre a supracitada Caixa para guardar o vazio.
Penso então em Rachel Whiteread e nos seus moldes dos espaços negativos das coisas, capazes de endurecer o espaço, de convertê-lo em massa, de ocultar os espaços perdidos. Ou em como Blinky Palermo assumiu para a sua pintura os espaços marginais habitualmente ignorados. Mas, sobretudo, em como a escrita se converte numa caixa de ressonância para autores como Maurice Blanchot, sendo capaz de abrir espaços anónimos ou intransponíveis entre o escritor e o livro que precisam de ser preenchidos pelo leitor. Esse espaço diferido, esse acontecimento passado mas não presenciado, é o que nos é permitido explorar em Materials Lab.
Em qualquer caso, esta não é a primeira vez que Fernanda Fragateiro trabalha numa espécie de arquivo pessoal, convertendo a informação ou o próprio espaço arquitectónico em paisagem. Assim foi, por exemplo, quando traduziu numa peça de chão para a arquitectura da galeria NC-Arte, em Bogotá, um desenho hoje perdido de Anni Albers para uma tapeçaria, colocando-o também em relação com a obra de Josef Albers e a sua possível influência na América Latina. A verdadeira chave para Fernanda Fragateiro é o processo dessa conversa, como ocorre agora com o diálogo entre os materiais. Na perspectiva de Albers, não se pode pôr uma cor ao lado de outra sem transformar as duas, e o mesmo sucede nesta escavação arqueológica que é Materials Lab: a arte como incessante estranhamento performativo em relação ao mundo.
créditos © bruno lopes
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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