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Ciclo da Cobra / Marta Mateus — Evocar a língua

O cinema de Marta Mateus apresenta a vida, afastando-se de qualquer representação. Nele, enquadramentos, planos, montagem, sons, falas, pessoas, são a síntese de uma gravitas: a gravidade que liga qualquer forma de vida ao chão, o peso das coisas que não elimina o que de misterioso existirá na sua queda. Uma vida é sempre mais do que se possa dizer dela. É no que se pressente desse indizível que este cinema se aventura, com uma uma concisão tão laboriosa quanto depurada.

No Alentejo, região do sul de Portugal onde Marta filma, há uma perda que se adivinha na terra e nas gentes, uma escassez que se pressente: a terra pouco devolve a quem a trabalha, crianças e velhos deambulam em caminhos sem princípio nem fim. Era assim em Farpões Baldios (2017), primeiro filme de um cinema que surpreende também pelas vidas e pelos lugares que revela.

Evocar a língua (2019) é o esboço de uma espera. Duas mulheres, no sul de um país perdido. Vestidas de negro, duas idades, contra um muro de pedras que lhes dá pelo meio do corpo. Pés assentes nas pedras que desse muro resvalaram. Sussurram, quase não ouvimos. Cada uma em seu solilóquio. Podem dois solilóquios construir um diálogo? Uma prece? Uma confissão? Elas estão. Elas são. Não há campo / contracampo, só cada uma na sua solidão. Sibilas? Feiticeiras? Mãe e filha? Vizinhas na mesma aldeia? Só as relaciona o muro, o campo, o negro que as veste, o canto dos pássaros, o silêncio no mundo.

Também há uma canção de Louis Armstrong. Arrastada, como a espera que as levou para aquele muro, por cima o céu azul. Fala do fim, num hospital. Um amor morto que não morre. Uma canção ouvida num outro filme: António Reis acompanhou com ela as imagens do hospital psiquiátrico em que filmou Jaime[1]. Por detrás de cada uma destas mulheres há o silêncio de um livro mudo[2]. As palavras são uma corrente sem fim, imperceptíveis. Hermético, o silêncio evoca a língua.

Tempos houve em que o cinema protegia o mistério das pessoas. Uma dignidade que a imagem não roubava. Hoje nem sempre é assim. Mas no cinema de Marta é assim, cada pessoa ou lugar são um mistério, cada palavra um enigma, e cada plano um desafio. Um farpão nesses baldios que este cinema nos convida a descobrir.

Numa terceira imagem, uma mão aberta em concha oferece o fogo. A chama paira sobre a pele, trémula, dançarina, lamparina que arde e não queima, vírgula bruxuleante que pontua a presença das duas mulheres e de quem as vê. Magia, bruxaria, ilusão? A mão fecha-se com doçura, a chama apaga-se, reaparece, a mão aberta revela-se aparição, lanterna mágica, iluminação, iluminamão. O cinema começa antes do cinema com o fogo. Nascem dele as sombras, os reflexos que os espelhos não guardam, a luz que precipita mundos para além do que os olhos vêem e não vêem. Não há cinema sem luz, não há feitiço sem lume, não há mundo sem chama. As bruxas mais poderosas sempre resistiram às cinzas às quais as pretenderam reduzir. Incombustíveis, como as imagens que nos deixaram.

João Fernandes
Director Artístico do Instituto Moreira Salles

[1] Jaime (1974), filme de António Reis sobre a vida e os desenhos de Jaime Fernandes (1900-1969), um 1 trabalhador rural internado no Hospital psiquiátrico Miguel Bombarda, em Lisboa.

[2] Mutus Liber, livro de imagens sem palavras publicado em França, em 1677, material de referência e 2 investigação para Marta Mateus na sua residência na Casa de Velazquez, em Madrid.

créditos © bruno lopes

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