BOX

Ramiro Guerreiro e Thérèse Mastroiacovo  — Drawing Collaboration

por Mara Verna

Drawing Collaboration [Desenhando a Colaboração] apresenta a colaboração transatlântica entre Ramiro Guerreiro (Portugal) e Thérèse Mastroiacovo (Canadá). Juntos, através da lente do desenho, investigam processos que incorporam a materialidade e noções alargadas de autoria. Exploram também o conceito de gesto para lá da imagem, o que potencia a dimensão ética e política. O gesto emerge sob a forma de vestígios, do efémero, num processo que se torna visível sem alcançar quaisquer fins em particular.

No sistema de decalque de letras, nos símbolos adesivos e na criação de padrões, utilizam-se noções arrojadas de normatividade ou hegemonia para aludir a sinais visuais e símbolos prescritos e identificáveis. São instruções, regulamentações e inscrições – actos constitutivos. Guerreiro e Mastroiacovo exploram este sistema, estes registos, que descrevem como composições encontradas. 

A instalação de desenho horizontal intitulada normatone / normacolor apresenta um conjunto de marcações de imagem através de um acrílico translúcido, o que permite que a própria função da mesa de luz revele um certo tipo de poesia. O radical, “norma”, parece então amplificado. São estas as regras que nos dão. Além da colagem, justaposição, reflexo e multiplicação, ocorre também um mapeamento através da utilização de uma materialidade que força o passado a assumir uma forma e enquadramento de presente. Ao descobrir e explorar estas diretrizes agregadas de um modo diferente daquele que seria previsto surge um novo tipo de potencial de criação de registos. Torna-se evidente a possibilidade de uma paisagem recodificada, inclinada sobre si própria a olhar para cima.

Untitled é uma projeção de vídeo que se encontra na vertical, à escala do corpo. Múltiplas densidades de linha desenvolvem-se num conjunto oscilante de gradações de rasura, ressurgência e sobreposição. Estas relações expressivas são múltiplas, acumuladas ou apagadas de uma camada para a seguinte, embora preservadas na sua integridade enquanto iterações já parcialmente realizadas. A textura avança e envolve. Os registos nos cantos oscilam entre a esquerda e a direita como ações de leitura forçada. Linhas e curvas compõem tipos de letras, fontes – uma espécie de retrato. Enunciações qual sons articulados suportados através de vestígios de gestos desenhados.

Neste contexto, a impressão digital intitulada Hospedaria poderá funcionar como uma espécie de técnica de deteção coreografada que une os vários elementos transversais a estas obras. Hospedaria reanima a ideia de efemeridade residual, servindo de testemunho esgotado, desgastado pela exposição, e gozando de um estatuto reverencial que não pode ser facilmente descartado como um processo subtrativo em evolução.

O significado de hospitalidade deriva do latim e diz respeito à relação entre convidado e anfitrião, sendo a generosidade no acolhimento uma prática hospitaleira. Nestas obras, a interação entre forma e função é recalibrada através do conceito de hospitalidade, tal como acontece com as tramas de linhas cruzadas em tensão dinâmica.

Guerreiro e Mastroiacovo desafiam estas tensões no seu encontro com estas composições encontradas e até mesmo através na forma como usam a luz, que funciona, ela própria, como um mecanismo de inscrição. É através destas aberturas que Guerreiro e Mastroiacovo reativam e recodificam. É esse o substrato do seu desenho.

creditos © bruno lopes

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /