SQUARE

Irene Grau — dia incohérent

Curadoria: David Barro
Em colaboração com DIDAC

Não é fácil ser-se radicalmente incoerente. Nem na língua nem na pintura. Os situacionistas conseguiram-no na sua intencionalidade antiartística, caminhando na dérive e empoderando a figura do flâneur, essa personagem inútil no contexto acelerado da modernidade. Incoerente é o que é confuso, discordante, incompreensível, o que escapa à lógica. Em suma, a proposta de algo alternativo, em muitos casos contradizendo o modo de habitar. A incoerência assenta frequentemente no absurdo, ou assim parece, como quando Irene Grau propõe experimentar um dia incoerente tingido absolutamente de azul. Recordo como Derek Jarman utilizou esta cor como metáfora da cegueira de que ele próprio padecia, em resultado da sida, apresentando um filme em que a única imagem consiste num azul monocromático sobre o qual é recitado um texto autobiográfico do próprio autor. Embora neste caso a relação seja outra, menos severa mas igualmente irónica, ligada directamente às acções de Les incohérents, o colectivo parisiense de finais do século XIX formado por um grupo heterogéneo de (não) artistas cujas propostas incluíam uma série de imagens satíricas monocromáticas do poeta Paul Bilhaud e do humorista francês Alphonse Allais, que no seu álbum Primo Avrilesque apresentava situações absurdamente monocromáticas. A ideia do monocromo surgiu, na altura, como brincadeira conceptual, uma crítica gráfica à tendência de pintar paisagens como as de Turner ou Whistler. Agora, Irene Grau propõe uma imersão no monocromo por via do humor, levando até aos limites as possibilidades da pintura. Se, na Fundação DIDAC, há alguns anos, Irene Grau deambulou pelos espaços verdes de Santiago de Compostela vestida de verde e transportando um quadro verde, gerando uma pintura entendida como um fenómeno do olhar e do pensamento que precede a própria obra, agora, na Appleton, em Lisboa, a artista propõe um dia incoerente que integra pequenas acções pictóricas quotidianas impregnadas de azul. Entretanto, esta fissura perceptiva mergulha-nos numa espécie de viagem inevitável e desenfreada pela história da arte: desde as naturezas-mortas de sombras azuladas de Cézanne, à pintura habitada de Helena Almeida, passando pelo espírito monocromático de Yves Klein.

Acção realizada em 02.04.2022. Fotografia e audiovisual Álex Marco

creditos © bruno lopes

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