SQUARE

Albano Afonso — Em Estado de Suspensão

Curador: David Barro em colaboração com DIDAC

Albano Afonso apresenta uma série de móbeis suspensos no ar compostos por objetos como vasos de bronze, cristais, um crânio espelhado…, elementos que giram sobre si mesmos, fundindo-se com feixes de luz projetados nas paredes. O título da exposição – Em Estado de Suspensão – remete para a colocação destes objectos, mas também para a forma como o nosso olhar se expõe a um abismo horizontal, a um problema de equilíbrio, como o das suas esculturas móveis. Porque estes conjuntos escultóricos pendurados no tecto da Appleton são naturezas-mortas, género essencial na história da pintura figurativa que, paradoxalmente, nos remete a uma abstração muito mental. Porque a partir de uma atmosfera misteriosa, surge um caleidoscópio inesgotável de reflexos e sombras, que nos conduz a um abismo.

Por um lado, encontramos fragmentos do corpo do artista, como as suas mãos, que permitem jogos de sombras que lembram as sombras chinesas da nossa infância, evocando pássaros ou cães. Por outro, uma série de cristais minerais que são em si uma outra natureza construída com cristais com os quais enfatiza o seu interesse pelo reflexo e pela luz. Em outros casos, esse equilíbrio é ironizado com uma série de pesos. A imagem esfuma-se e desaparece.

Tudo isto é enfatizado pela projeção de luzes coloridas que, por sua vez, geram outros enquadramentos, como acontece em muitas das suas séries fotográficas – quando fragmenta o seu próprio atelier para esconder auto-retratos ocultos, sugeridos por detrás da luz dos flashes fotográficos e insinuados através de fragmentos do seu corpo – um recurso que domina também estas esculturas móveis, que traçam uma performatividade cinética e sonora, provocando suspense e contemplação, ao mesmo tempo que instigam uma reflexão sobre o mundo substancial e o universo existente para além da matéria.

Em Estado de Suspensão o nosso olhar assume uma vertigem que se apodera da experiência a todo o momento. Gera-se então uma estranha situação de espera, transformando a paisagem numa espécie de paraíso misterioso, algo típico da obra de Albano Afonso, sempre seduzido pelas histórias que nos chegam desfocadas e que retratam o indizível, tendo a cor como acontecimento modulado na instabilidade, apreendendo o mundo na sua dimensão flutuante.

Porque para Albano o mundo não é uma espécie de desenho realista, mas uma revelação da sua potência pictórica, dando lugar às possibilidades do olhar como história, como experiência, gerando fissuras na percepção a partir de um jogo obsessivo com a luz e com as formas que transbordam da sua própria condição.

creditos © pedro tropa

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /