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Nuno Nunes-Ferreira — ANO SABÁTICO

Curadoria: Luísa Santos e Ana Fabíola Maurício

Comummente, associamos um ano sabático a um intervalo de tempo aproximado em que se interrompe a atividade profissional ou académica, a fim de prosseguir outra atividade. Se pensarmos na etimologia da palavra “sabático”, seremos conduzidos ao vocabulário hebraico também conhecido por Shemitá, que significa “libertação”, na tradução literal. Esta libertação poderá ser encarada como uma libertação dos constrangimentos da constante exigência de apresentação pública do trabalho que resulta de processos contínuos e permanentes de (auto)formação e (auto)construção do artista, como poderá ser encarada enquanto libertação de um acumular de (in)visibilidades do trabalho do artista. A exposição ANO SABÁTICO (2023) diz respeito ao ano de 2023, durante o qual Nuno Nunes-Ferreira (1976, Lisboa) se dedicou a projetos pessoais, sem apresentar trabalho novo publicamente em exposições. Ou seja, um ano de trabalho que permaneceu invisível e que, agora, findo o período de produção, poderá ser tornado visível, livre das paredes do atelier. Contudo, este processo de tornar visível, esta “libertação” – tal como toda a liberdade – tem um preço.

365 dias, 365 obras de arte
Comecemos pelo ano, o tempo de produção de ANO SABÁTICO. A prática de Nuno Nunes-Ferreira poderia ser descrita como duracional, os seus projetos implicam sempre longos períodos de investigação e de acumulação de material que observa, categoriza, cataloga, interpreta e transforma. Lembremos, por exemplo, o projeto Dois Anos e Meio (2016-2019), apresentado na Galeria Balcony em 2019, que, na verdade, ainda não terminou, só recentemente se concluiu a obra Chegar aos Cem (2016-2019), à qual faltava encontrar a notícia de jornal correspondente a um 81° aniversário, para “chegar aos cem”. Em ANO SABÁTICO, durante um ano, trabalhou ininterruptamente (ao contrário da promessa de um período sabático) e, num processo performativo de repetição diária, produziu uma obra de arte por dia.

A cada 28 a 31 dias – dependendo dos meses, de Janeiro a Dezembro 2023 – 28 a 31 obras de arte juntaram-se mês a mês, caixa a caixa, até à 12.ª caixa. No final de cada mês, cada caixa foi fechada e selada e as regras foram ditadas. Ao fechar a caixa no último dia de cada mês, o artista determinou, com a sua performance sabática mensal, que dentro daquela caixa se encontravam um número de obras de arte correspondentes ao número de dias do mês em que as mesmas foram produzidas, anunciando simultaneamente que as mesmas só podem ser consideradas obras de arte enquanto a caixa se mantiver fechada; a abertura, e consequente visualização das obras de arte, de imediato lhes retirará essa categorização, passando os objectos a possuir uma identidade de ex-obras de arte.

Os 365 dias de 2023 e as 365 obras de arte que Nuno Nunes-Ferreira produziu diligente e diariamente durante esse ano, encontram-se, assim, literalmente encaixotados. As caixas (e a estante que as organiza, dispõe e mostra) são os únicos elementos a que se tem acesso directo de fruição/visualização, sendo, ao mesmo tempo, os elementos de contenção e de forma da obra ANO SABÁTICO, assim como os elementos delimitadores e impeditivos de chegarmos a efectivamente a visualizar e a fruir das obras de arte que o artista criou dia a dia, todos os dias, durante o ano de 2023.

O preço de tornar visível, a libertação
O gato de Schrödinger é numa experiência mental da mecânica quântica, levada a cabo pelo físico austríaco Erwin Schrödinger em 1935, que estuda o paradoxo da sobreposição, aparentemente ilógica, de dois ou múltiplos estados. Na experiência, existe um gato hipotético dentro de uma caixa que tanto pode estar vivo como morto, porque, nesse mesmo contentor há um veneno que o pode matar. A teoria demonstra que, enquanto a caixa se mantiver fechada, o gato não está vivo nem morto mas num estado simultaneamente vivo e morto. No momento em que a caixa é aberta, a sobreposição deixa de existir e podemos observar o gato numa condição única – vivo ou morto, sendo o observador aquele que acaba por determinar, através da sua escolha de abrir o contentor ou de mantê-lo fechado, o desfecho final de vida ou de morte do gato. É a observação, necessariamente empírica, e não o pensamento, necessariamente conceptual, que traz uma conclusão à experiência, mas ao fazê-lo destitui a experiência de todo o seu potencial enquanto elemento de exercício cognitivo que venha a permitir uma maior e mais profunda reflexão sobre e eventual conhecimento deste universo.

O encontro com o ANO SABÁTICO (2023), de Nuno Nunes-Ferreira, é reminiscente desta experiência. Estamos perante um conjunto de doze caixas fechadas, todas exatamente com o mesmo tamanho, devidamente numeradas, com a descrição dos seus conteúdos no exterior, e com instruções, sempre iguais com a exceção do dia, mês, e respetivo número de obras que corresponde sempre ao número de dias do mês, como:
“NO DIA 30 / 11 / 2023 O ARTISTA NUNO NUNES-FERREIRA FECHOU E SELOU ESTA CAIXA, GUARDANDO NO SEU INTERIOR 30 OBRAS DE ARTE, REALIZADAS E NUMERADAS DIARIAMENTE DURANTE O PERÍODO DE UM MÊS. O ARTISTA DECLARA QUE AS OBRAS DE ARTE NO INTERIOR DESTA CAIXA SÓ TÊM SIGNIFICADO COMO OBRAS DE ARTE SE A CAIXA PERMANECER SELADA. O ARTISTA AUTORIZA A ABERTURA DESTA CAIXA, MAS DECLARA QUE APÓS VISUALIZAÇÃO DO SEU CONTEÚDO TODOS OS OBJETOS COLOCADOS NO SEU INTERIOR DEIXAM DE TER SIGNIFICADO COMO OBRAS DE ARTE”.

Enquanto as caixas estão fechadas, sabemos (acreditamos) que estão lá entre 28 a 31 obras de arte, dependendo dos meses a que se referem. Contudo, não as podemos ver. Ou seja, não temos acesso às suas imagens e formas, áquilo que as torna vivas enquanto obras de arte. Se escolhermos não abrir as caixas, as obras de arte mantêm-se conceptualmente vivas como tal, retêm a sua identidade, mas não existe a possibilidade de fruição “prática” das mesmas. Se escolhermos abrir as caixas – afinal, o artista autoriza que estas sejam abertas – ganhamos acesso ao seu interior; porém, o que eram antes obras de arte, deixam de sê-lo quando as mesmas são visualizadas. Quando abrimos as caixas e usufruímos sensorial e empiricamente das obras, matamos a sua identidade.

Mas tal como acontece com uma garrafa rara de um bom vinho, a fruição existe em planos diferentes. A fruição está em saber que se possui algo que tem valor por se encontrar selado desde o momento de produção, intacto e desconhecido, mas a fruição também está em planear a abertura de algo assim para marcar um momento especial, vivido com família e amigos, onde finalmente se quebrará o selo e se estabelecerá uma relação directa com as obras de arte produzidas pelo artista para, em última análise, serem usufruídas, conhecidas e reconhecidas. Mas tal como acontece com o vinho, que ao ser provado deixa de existir enquanto tal, também aqui o mesmo acontece com a obra de arte que ao ser “bebida” passa a ser uma ex-obra de arte. A experiência de ter vivido e usufruído de obras de arte que quando fechadas na sua caixa viviam apenas de conceptualidade, traz mais-valias à experiência que será potencialmente tanto mais compensatória quanto maior for o pendor conceptual atribuído às obras.

Sobre a conceptualidade da arte e o empirismo da vida
Se ao entrarmos num espaço de exposição a obra exposta anuncia que a sua visualização é o acto que destitui a obra dessa mesma categorização, como é que nos podemos relacionar com a obra? A invisibilidade e a ausência de acesso à obra podem, neste caso, ser consideradas como actos de generosidade do artista que, assim, permite a existência de potenciais fruições das suas obras em vários planos (e eventuais momentos) diferentes mesmo só no espaço de exposição: a ideia sobre o mistério do trabalho que acontece e que fica no estúdio do artista, a conjectura sobre que obras se encerram dentro das caixas e porquê aquelas (que desconhecemos) e não outras (que imaginamos), a apreciação formal de 12 caixas de cartão catalogadas dispostas numa estante de metal e madeira, que com a sua existência física e as suas indicações escritas, trazem para o primeiro plano a fundamental e necessária existência conceptual de toda a arte dado que a arte lida sempre com noções que nos são essenciais: o tempo, o espaço, a memória e a imaginação.

Luísa Santos e Ana Fabíola Maurício
Dezembro 2023

creditos © pedro tropa

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