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Isabel Cordovil — A TORCH SONG
A esperança é uma atitude, uma disposição do espírito, que contém muito mais do que componentes racionais, articulando desejos, crenças e possibilidades de futuro. A esperança tem, assim, uma natureza compósita: é necessário querer o e crer no resultado daquilo que se espera. É uma capacidade sofisticada na qual se entalha a humanidade, cuja ausência – a desesperança – se apresenta enquanto saliência patológica grave e para a qual psicofarmacologia apresenta respostas cada vez mais completas. Um corpo sem esperança não consegue sobreviver.
Isabel Cordovil, artista cuja obra se inscreve nos interstícios entre a vida e a morte, investiga sempre a potência monumental ou monumentalista de objetos, momentos ou situações. Em A Torch Song, a artista obriga a um olhar sobre a esperança num momento em que a vigília, esse ato voluntário de estar desperto ligado ao culto, aos rituais e aos manifestos se transforma em obrigatoriedade vigilante. Numa divisão cinzenta (em todos os sentidos), uma secretária cinzenta e uma cadeira cinzenta. Sobre a secretária, vários ecrãs de pequeno formato, em clara obsolescência tecnológica, mas recordando os ecrãs de telemóvel, transmitem em streaming os lugares onde algum milagre já ocorreu (Fátima, Meca, o deserto do Nevada, onde se esperam aliens, ou algures na Finlândia, onde podem ocorrer fenómenos ligados às auroras boreais, entre outros), na esperança vigilante de que outro milagre aconteça.
A esperança enquanto elemento vital da humanidade é de tal forma preponderante que, através dos séculos e do globo, foram muitas as formas encontradas para transformar os seus impulsos subjetivos em matéria-prima para comportamentos coletivos: a religião será a grande culpada destas dinâmicas instrumentalizantes. Entende-se aqui a religião em toda a sua pluralidade e campo de ação, existindo na obra de Cordovil uma referência às várias crenças organizadas, cuja pegada visual ofereça este mapa da esperança pós-internet. O regime de vigilância total para o qual nos alertou Foucault surge aqui melhorado. Para o autor, a solidão era a condição primeira da submissão total; o isolamento era necessário para a eficácia da vigilância. Agora, é necessária a comunicação constante (não só o direto mas também o streaming). A esperança é uma mercadoria preciosa naquilo que Shoshana Zuboff descreve como a Era do Capitalismo da Vigilância: “uma lógica económica parasitária, na qual a produção de bens e serviços se subordina à nova arquitetura global de modificação comportamental”. Controlar a esperança é deter um poder quase total sobre o ser humano.
Nesta era, o corpo e carne são apagados e transformados em dados e, por isso, o próprio vigilante, ou mero tecnocrata, está ausente, chegando-se ao grau zero da desumanização. Os cabos que compõem a instalação de Isabel Cordovil são as artérias que sustentam o único corpo possível (um corpo já sem carne) de ligação das imagens e sons presentes ao resto do mundo. Simultaneamente, são a imagem literal da esperança ligada às máquinas, moribunda e isolada numa sala cinérea, à espera de saber como se espera pela esperança ou embrulhada no cliché de esperar por um milagre.
Ana Cristina Cachola
Fevereiro de 202
creditos © pedro tropa
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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