BOX

Francisca Aires Mateus 45,359 kg

“Vai depressa para o meio do exército dos Troianos e dos Aqueus e esforça-te para que aos Aqueus exultantes na glória sejam os Troianos os primeiros a lesar, à revelia dos juramentos.” Assim dizendo, incitou Atena, já desejosa de partir. E ela lançou-se veloz dos píncaros do Olimpo.
Ilíada
de Homero

Com 45.359 kg, Francisca Aires Mateus provoca instantes de inquietação, num espaço onde a fisicalidade dos corpos femininos se torna central e num contexto que desafia convenções de violência e poder. Inspirada em figuras femininas históricas e mitológicas, como a Esfinge, a Medusa e a Padeira de Aljubarrota, a instalação salienta o papel de heroínas e mulheres guerreiras na cultura ocidental, reforçando a sua importância nas narrativas contemporâneas. Esta peça é construída em torno de um vocabulário dos movimentos e sons produzidos por um grupo de mulheres a praticarem Muay Thai (arte marcial tailandesa que se caracteriza por uma luta de contacto total entre duas pessoas). A artista reivindica a voz feminina como expressão de força física e insubmissão face aos códigos sociais e explora os efeitos imprevisíveis que decorrem de uma situação de ambiguidade e tensão.

O público é empurrado para um ringue que se encontra numa total escuridão e onde uma complexa composição de sons animalescos concentra todos os sentidos a favor da audição. Socos, chutos, grunhidos e respirações ofegantes envolvem a sala, criando uma experiência auditiva de 360 graus que coloca o público no centro de uma dimensão visceral e tangível. Sem quaisquer pistas visuais, ao seu primeiro contacto os sons de esforço tornam-se estranhos, irreconhecíveis, desafiando as percepções convencionais de combate, género e expressão corporal. O som, que oscila entre o de um combate agressivo com uma respiração mais lenta, é intercetado por um flash de luz que agride os olhos já habituados ao escuro, simulando uma sensação física de um embate inesperado.

A narrativa paralela da obra destaca a proximidade entre a coreografia do combate e dos sons emitidos pelas lutadoras com um espetáculo operático. Num crescendo, desconstrói todos os elementos originários do desporto transpondo-os para os de uma encenação: começando com as conversas fora do ringue, os exercícios, os alarmes e apitos sobre a contagem de tempo, até aos momentos de impacto e luta. Esta peça é, assim, uma incitação para imergir numa ópera experimental e personificar essas mulheres.

Ao manipular o som, entre a tensão da violência real deste desporto e a sua estetização artística, o projeto critica e reimagina narrativas tradicionais, oferecendo um espaço onde audição, movimento e materialidade convergem num exercício de memória e desconforto. A artista convida o espectador a confrontar as suas próprias suposições, encontrar significado na ambiguidade e descobrir novas formas de interpretação da sua experiência com a peça.

Francisca Portugal

creditos © pedro tropa

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /