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Flávio Rodrigues — Composição I Arar o Solo com Derivas e Mistérios

A nova vida dos objetos

Todos os nossos gestos chegam a algum lado, todas as nossas ações têm consequências. Os caminhos que traçamos definem trajetórias por vezes imprevisíveis quando pensados a priori. Mas há também o lugar do desconhecido em tudo o que fazemos. A arte repousa por aqui. A peça performática Composição I Arar o Solo com Derivas e Mistérios, reconstrói-nos um pedaço de uma história nómada feita com recolha de restos. Aquilo que resta do abandono, da interrupção, da degradação. Aquilo que resta do resistir ao tempo e à erosão que ele transporta. Flávio Rodrigues caminha e colhe aquilo com que se cruza e com o que resta daqueles lugares do abandono e do desgaste. O chão que é pisado torna-se, portanto, caminho fértil para que novas vidas aconteçam. O objeto encontrado levanta a suspeita de uma nova vida que se avizinha.

O coreógrafo Alwin Nikolais distinguia muito bem motion de emotion, dizia que a dança era motion, não deveria partir daquilo a que se pode chamar emotion. Dizia isto porque, simplesmente, é a própria motion que levaria à emotion. Um determinado fazer levará a uma determinada emoção. Assim, talvez não nos percamos ou afundemos na densidade da emoção e nos desbloqueemos a partir da ação. Também a caminhada e o olhar que atingimos por esses caminhos, são incertos e enigmáticos porque não têm um propósito ou uma finalidade. Caminhamos sem partir de nada em concreto, são pura ação.

Composição I Arar o Solo com Derivas e Mistérios, é um momento de suspensão onde os objetos pela mão do Flávio Rodrigues, vão ganhar uma nova vida. A composição irá encarregar-se de lhes dar um novo contexto, de lhes reciclar a memória que lhes resta. A composição age como uma arqueologia duplamente ficcional e histórica.Há um retorno ao lugar e há um retorno ao vazio de sentido. Mas há sobretudo um cuidar de objetos encontrados, largados na destruição do tempo. Há um gesto de afeto eterno. Há um novo castelo que Flávio Rodrigues nos oferece ao nosso olhar.

Né Barros

creditos © pedro tropa

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