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Sara Bichão — Raiz Quadrada

Curadoria: Luísa Especial AiR 351

Em 2007, enquanto estudante das Belas-Artes, Sara Bichão apresentou, nos corredores dessa universidade, duas portas de madeira sobre as quais pintou e desenhou; aplicou o mesmo procedimento ao bloco de parede adjacente. Signos diversos, realizados em traço fino, flutuavam, emergindo e submergindo conforme as camadas de tinta. Um chapéu de chuva, setas, frutos e escadas que não levavam a lado nenhum. A maior parte dos motivos ali desenhados não correspondiam à representação de quaisquer objectos ou formas conhecidas.

Pouco depois, desenhos caracterizados por uma simetria voluntariamente imperfeita, surgiram sobre blocos de cimento de formas geométricas ou para-geométricas evidenciando a propensão de Bichão para uma geometria sensível: linhas precisas e convergentes a um centro fintando o rigor absoluto através da contraposição de elementos da ordem do natural, do afectivo, do gesto.

A partir de 2012, a artista passou a desenhar, com assiduidade, em cadernos de pequeno e médio formato. Nestes, a mobilização da cor é um aspecto fundamental. Numa escala íntima, os motivos surgem habitualmente ao centro, deixando o resto da folha vazia. Constata-se, pelo menos desde esse período, a recorrência de certas imagens, como sejam as formas circulares ou ovais que evocam elementos naturais e corpóreos. Embora possam ser fixações, estas imagens não se repetem numa tentativa de aproximação à figura desenhada; antes exploram ou inventam declinações e derivações. Ou seja, parece existir um desejo de captar o que dada imagem poderá ser mais do que uma vontade da sua representação efectiva. Entretanto, outros formatos acolheram o seu desenho, que continuou a galgar as margens do papel e a instalar-se noutras superfícies.

Raiz Quadrada reúne várias dezenas de obras nas quais o desenho tem um papel vital, reforçando a noção de que esta prática tem perpassado a produção artística de Sara Bichão de forma consistente e estrutural, independentemente do suporte.

No domínio do desenho como fim em si mesmo, o caso dos desenhos sobre papel ou tecido, salientam-se alguns grupos ou “famílias” que foram surgindo à medida que fazíamos o inventário das obras para este projecto: atmosferas; metamorfoses; e obras esquemáticas. Nas três vertentes, a relação com o natural e com o corpo é matricial.

Quando habita os objectos, o desenho de Bichão caracteriza, cria uma nova memória, ao animar (no sentido de imprimir vida). Trata-se de inscrições minuciosas nas quais o desenho acrescenta informação, numa codificação própria, evocando, por vezes, uma linha costurada. O desenho é, aqui, uma via para a marcação, para a adição de informação visual. No caso dos “fatos”, destinados a corpos humanos, o desenho que aí aparece assemelha-se a tatuagens. Outras vezes, possui a escala da escrita – e recorde-se que a escrita faz também parte da produção artística desta autora.

Num terceiro nível, considera-se o desenho enquanto pensamento espacial, o caso das esculturas que são como desenhos de linhas no espaço, o que se realiza também pelas sombras projectadas.

Raiz Quadrada põe em relação um conjunto de obras nas quais o desenho surge como campo fecundo de possibilidades, prática viral, de contaminação, assumindo uma multiplicidade de papéis. Contemplar um arco temporal de cerca de 15 anos de trabalho permitiu registar certos aspectos e gestos comuns que reforçam a centralidade do lugar do desenho e o seu polimorfismo no seio da prática de Sara Bichão. Refiram-se duas linhas de força: a convivência da vertente animista (da emoção, da fantasia, da energia, da temperatura, do poético, do onírico e do lirismo) com a feição analítica (do pensamento esquemático e do foro geométrico); e as antinomias, observadas, entre outros, na vontade de elevação que contrasta com a gravidade experimentada pelo corpo e pela fricção gerada pelos pólos de cor. A verticalidade, outra constante, é reforçada pela imagem da raiz.

Este projecto conhecerá outros desdobramentos, nomeadamente uma publicação, em 2025, que contará com ensaios de Joana Neves, Noëlig Le Roux e Delfim Sardo, bem como momentos de apresentação pública. Pretende-se, com isso, que novas relações possam irradiar a partir do maior conhecimento acerca destas obras, do seu estudo e da sua contextualização.

Luísa Especial

Dezembro, 2024

Esta exposição foi possível apenas graças à generosa colaboração de cerca de duas dezenas de colecções, institucionais e individuais, entre as quais se contam: Colecção Carlos Bessa Pereira, Colecção José Costa Rodrigues, Colecção Joaquim Ferro, Coleção Figueiredo Ribeiro – Abrantes, Colecção Norlinda e José Lima, Colecção ECO, Coimbra, Colecção Galería Silvestre, Colecção de Arte Fundação EDP, Galeria Filomena Soares, Colecção Fundação Carmona e Costa e outras Colecções Particulares.

Um projecto concebido e desenvolvido pela AiR 351 em colaboração com a artista Sara Bichão, com o apoio da Direção Geral das Artes, Fundação Carmona e Costa e editora Sistema Solar.

creditos © pedro tropa

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /