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Abanque 2004-2024

Curador: Ricardo Vasconcelos

Alexandra Moura / Ana Cunha / Ana Vidigal / Eduarda Abbondanza / Fernando Brízio / Fernando Sanchez Salvador / Filipe Alarcão / Henrique Ralheta / Hi Design Team / José Adrião / Kitty Oliveira / Lidija Kolovrat / Manuel Alves – José Manuel Gonçalves / Manuel Barbosa / Manuel Graça Dias / Marco Sousa Santos / Margarida Grácio Nunes / Maria João Sopa / Mário Cesariny / Miguel Flor / Miguel Mendes / Miguel Vieira Baptista / Mood / Noé Sendas / Paulo Ludgero de Castro / Pedro Cabrita Reis / Pedro Gomes / Ricardo Bak Gordon / Ricardo Custódio / Rui Cunha / Sam Baron / Sara Maia / Toni Grilo / Valentim Quaresma / Vasco Araújo / Xana Nunes / Yen Sung

Quatro patas inquietas

Contrariando a vertigem do mundo, um banco, em princípio, é um lugar de paragem. Num banco, sentamo-nos para recuperar o fôlego, para desempenhar uma tarefa (numa cozinha, numa oficina), ou meditar no mundo. Um banco pode ser um depósito (de notas, de dados, de areia) ou um convite: puxamo-lo, de improviso, para criar mais um lugar à mesa, abrindo espaço para a convivialidade. De uma economia e simplicidade contundentes, um banco nunca é uma só coisa, e por isso, sendo o assento arquetípico, consegue quase sempre escapar ao lugar- comum.

Enquanto palavra, ‘banco’ é um desassossego. E essa natureza irrequieta persiste ainda no objecto: um tampo, quatro patas, madeira sem pregos à vista, um furo ao centro, permitindo que se eleve sem esforço e seja facilmente transportável. Parece simples, mas talvez não seja tanto. Também na imobilidade há agitação. Tratando-se de um objecto familiar, que atravessa tempos e espaços, sucessivos contextos, com uma desenvoltura espantosa, um banco é um significante desdobrado, alado. Encontramo-lo no espaço doméstico e na taberna, no mundo rural e na cidade, servindo de suporte a uma planta, de banco de ideias, debaixo de uma pilha de livros, ou fazendo de escadote, sempre à mão.

Um banco é um lugar de paragem, que parece apontar para uma quietude, uma sedimentação. Mas um banco é também um lugar de passagem, desenhado para responder ao contexto com uma agilidade inusitada, sem nunca abrir mão da sua estabilidade, sem nunca permanecer muito tempo no mesmo sítio.
Neste sentido, é o objecto perfeito para provocar. Imperturbável, na sua solenidade simples, ele agita o espaço. Um banco é um moscardo, e talvez por isso, tenha sido o objecto escolhido pelo curador Ricardo Vasconcelos, no ano de 2004, como ponto de partida para um repto lançado a mais de 80 artistas, arquitectos, designers, músicos e mentes criativas em geral, desafiadas a responder a este objecto, através de intervenções que o puxavam do universo vernacular onde nasceu, prestando-lhe um “cunho autoral”. Se é certo que a palavra vernacular está

ligada ao universo doméstico pelas piores razões – deriva de “verna”, uma pessoa escravizada nascida na casa do seu “senhor”, e por isso carrega em si uma forma de opressão – nas mãos destes criadores, estes objectos libertam- se e tornam-se duplamente ‘sujeitos’. Habitando o espaço, animados pelo uso que lhes damos e pelas que relações que com eles estabelecemos, os bancos passam a ser habitados pelo imaginário de quem, criando, chega a eles pela primeira vez, fintando a familiaridade.

Como o título da exposição original na Mousse – reeditada 20 anos depois na Appleton, numa versão mais concentrada – indica, um banco convida a “abancar”, ou seja, é um lugar de sedentarismo. Mas ao passar por estes objectos, realizamos até que ponto este banco de quatro patas foi feito para uma existência nómada. Leve, simples, mas incrivelmente robusto, utilíssimo e compacto, ele deambula e viaja preso por um fio, por um dedo. Percorre o espaço habitado, mas também a imaginação. Como o mocho que o inspira – uma ave nocturna, robusta e com uma postura cerrada, fechada sobre si mesma – o banco é um bicho quieto, pousado na árvore, que de repente abre as asas para voar.

Madalena Galamba
Março 2025

creditos © pedro tropa

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