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João Cutileiro
Curadoria: Frederico Portas
Co-produção: Centro de Arte João Cutileiro
A presente exposição, da obra de João Cutileiro (1937-2021), é composta por um conjunto
heterogéneo de obras do artista. Materiais, processos, épocas e preocupações múltiplas,
em co-presença e co-afectação, sim, mas com marcadas diferenças.
[I] talvez a extraordinária disseminação da obra de João Cutileiro (a qual terá, sempre, o
seu lugar na história da escultura portuguesa da segunda metade do século XX) poderá
ter conduzido à recusa da sua heterogeneidade, ou antes, à promulgação – e corroboração
– de teses e evidências relativamente definitivas acerca da obra do artista. A manutenção,
obstinada ou atemática, de algo desta ordem pode, e tende a, produzir uma espécie de
cegueira (visão monocular) em relação ao exterior dessa ótica (em relação a outras
perspectivas, sensíveis, que as obras também consentem). Podem, e tendem, a impedir a
ocorrência de espanto, a possibilidade de ver as coisas de outro modo, a superação
endógena de um ponto de vista convicto de ter levantado o véu. Recorda-nos Novalis,
referindo-se aquele que terá levantado o véu da Deusa de Sais e apenas se terá
vislumbrado a si mesmo.
[II] à margem de preocupações históricas ou didáticas, poder-se-ia dizer que esta
exposição apresenta um conjunto de trabalhos que têm como assunto o corpo (como tantas
outras exposições do artista o tiveram), o fúnebre, o tumular, a morte. Matérias indecisas
e abertas, mais próximas do cristal de mil faces (caleidoscópicas, labirínticas, desérticas)
do que do triângulo cartesiano. Reinos fenoménicos onde se verifica uma petição para o
exame do próprio, uma inspeção de si consigo no silêncio, nas paragens. Talvez as obras,
na eventual ‘notificação’ (de espírito e corpo, de pensamento e intuição) de que são
capazes, se pronunciem a esse respeito.
[I & II] tanto a eventual ‘surpresa da obra’ como o eventual ‘pasmo da morte’ são
acontecimentos reflexivos, conversas interiores (do si-para-a-morte, do si-no-luto, do si
indecidido), do si com o outro, do corpo à frente de corpos. Por estas e por outras razões,
o presente texto é uma mera compilação de factos (uns mais que outros) e comentários
(incólumes) acerca das obras da exposição, de algumas (poucas) possíveis pontes entre
elas, entre outras coisas. O mais importante fica, então, de fora: deixado ao acontecer do
corpo,
‘da minha carne’, perante os pedaços de mármore, ferro, gesso, bronze, fibra de
vidro.
[III] uma última nota: cada folha de sala tem como imagem uma (de nove) fotografia de
uma escultura de João Cutileiro. Escultura produzida e destruída em Londres, na década
de 60, representa um Ícaro. Do Ícaro restam, apenas, nove negativos, nove documentos,
nove perspectivas. Nove versões do que já cá não está, de uma escultura destruída e
esquecida, emblema mitológico daquele que, por ambição e ensejo, levou até às chamas
as suas asas de penas, voou para a sua destruição, tal como a escultura, da qual pouco
resta.
A exposição…
[1] é composta, sobretudo – mas não só –
, por obras inéditas.
[2] é composta, sobretudo – mas não só –
, por obras produzidas em Londres, na década
de 60.
[3] é composta, sobretudo – mas não só –
, pela ausência processual de máquinas. As
máquinas – próprias das pedreiras – que, a partir de 66, vieram a edificar a obra de João
Cutileiro e, mais tarde, tantas outras obras, de tantos outros artistas.
[4] é composta, em parte, pela ausência do mármore. O mármore – rasgado à máquina –
,
das figuras femininas, dos monarcas, das árvores, dos mitos, dos retratos, dos bichos, do
mitos. O indespedível mármore da obra de João Cutileiro.
[5] é composta, exclusivamente – sempre –
, por matéria crua. Gesso, Bronze, Ferro, Fibra
de Vidro, Mármore. Nus, despidos, expostos, desvelados. A matéria da obra de João
Cutileiro, inexoravelmente crua.
[6] é composta, poder-se-ia – eventualmente – dizer, por três núcleos (três ‘buracos de
fechadura’) de trabalhos.
[7.1] nas prateleiras, nos ‘plintos de parede’: a) trabalhos produzidos em Londres,
enquanto o artista estudava na SLADE, enquanto era assistente de Reg Butler, sob a
influência de Henry Moore;
b) duas obras de cada, uma ‘cópia’, um ‘original’ (o gesso e o bronze, o gesso e a fibra de
vidro). Referentes iguais, fiscalidades heterogénias. (mesmo rosto, mesma figura sentada,
mesmo apetrecho; outros tempos: de criação, de secagem, de degradação). Sócias e
parentes, sim, múltiplos não. Todas, cada qual à sua maneira, lascadas, feridas e fendadas
pela medida da mão, do tempo e da matéria. Como que numa indecisão – embaraço,
hesitação – do ‘mesmo’ tornado ‘outro’
.
[7.2] nos plintos, no ferro oxidado: a) trabalhos da década de 90, época de homenagens
póstumas. Túmulos de Mármore – o mármore das máquinas –, com (ou sem) figuras
deitadas. Deitadas no anonimato da pedra tumular, nos confins da sepultura.
b) todas – sem exceção –
, são maquetas. Projetos de obras que acabaram por não ser
esculpidas. Fragmentos sem cumprimento, esboços daquilo que nunca foi. Fragmentos,
todavia, relativos: porque as maquetas de João Cutileiro são, desde o seu ponto de partida,
imprecisas ao nível da escala, diversas ao nível do seus processos, detalhadamente
dispares dos ‘edifícios’ que projectam. Aparentemente, estas – e tantas outras do artista –
as maquetas desviam-se de juízos metonímicos, não parecem cumprir as cláusulas –
suficientes ou necessárias – da noção de maqueta. Túmulos projectivos, murmúrios do
que está para vir, sim, mas autarcas – soberanos, nunca súbditos – da sua mesmidade.
[7.3] na caixa, na cripta: um único trabalho (‘Estátua Jacente do Poeta – Homenagem Pré-
Póstuma a Hélder Macedo’), no interior de uma espécie de túmulo. Obra, novamente,
produzida na década de 60, em Londres. Sem – ou com –, ironia, é uma homenagem pré-
póstuma. Uma homenagem ao morto-ainda-vivo, ao devir da morte daquele que ainda
possui lucidez. A escultura permanece solitária, num lugar seu, não diferente do lugar –
imaterial – das maquetas que nunca foram (também elas, quiçá, ‘pré-postumas’).
[7.4] de resto, uma gárgula (Londres, anos 60), tal figura apotropaicas (guardiã da morte),
tal emblema da mortalidade (memento mori, ‘recorda-te da morte’!); duas figuras
femininas (sem título, Londres anos 60), meninas desmembradas, uma cópia e uma
original (sócias, parentes); um torso partido (sem título, anos 90), intencionalmente
deixado despedaçado; uma mão (‘Balada de Outono’, 2019, Évora), última escultura de
João Cutileiro.
Breves notas. Esta exposição…
[a] é composta, sobretudo – mas não só –
, por restos. Restos de ferro, de gesso, de bronze,
de fibra de vidro, de pedra. Escombros da matéria, estilhaços de atelier, pedaços de
corpos. Os restos a que sempre recorreu (a que recorre o trapeiro), os restos a partir dos
quais se dá a aparição da coisa.
[b] é composta à revelia da multiplicidade. Multiplicidade de processos, assuntos,
matérias, motivos, desafios, cronologias, modos de fazer. Rumores, por sorte, de uma
obra que sempre foi tantas coisas e nunca apenas uma só.
[c] é composta – talvez – por versões. Versões alternativas do ser-para-a-morte e do
esquecimento; da finitude e do acesso; da ferida e da fenda; da carne e do corpo. Como
que numa ausência de ângulos absolutos, reino da paralaxe – concorrência, disputa,
contraste – entre diferentes versões do mesmo. Desdobramentos – perspectivísticos – do
si em relação consigo, entalado.
[d] é composta por corpos. Rostos, torsos, membros, mãos, entranhas, esqueletos. Corpos
sentados, deitados, reclinados, vedados. Corpos feridos, rasgados, acéfalos,
desmembrados. Corpos de ferro, mármore, bronze, gesso, fibra de vidro. Corpos
presentes e ausentes, grandes e pequenos, escarafunchados e polidos, imaginados e
esculpidos, em deferimento e em concorrência, solitários e em proximidade. Corpos ali,
corpos acolá. Corpos que aparecem aqui, ‘em-mim’
, que ‘me-aparecem’, em comércio
com ‘o-meu-corpo’. Presenças que ocorrem, por fim, diante da carne – da polpa e da
creditos © tspt
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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