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Sara Chang Yan —Sinto uma Especialidade que stravessa tudo

Escutar, escutar, escutar…
o timbre metafísico do universo.
O sopro silencioso do som.

É possível que existam realidades, para além desta. Outras, que extrapolem o imediato visível, e desafiem a cognoscibilidade da razão. É possível que o céu dance amarelo,  e cambalhote para tornar-se chão. Que o infinito se curve, e o espaço-tempo desapareça em azul.

No desenho, a curvatura do mundo some. Somem os pássaros e os seus voos em nuvem. O sol, e junto os ângulos e fotocélulas dos corpos que ele alumia. Resta o nada.

O “Nada”?

Às vezes, acredito que existe uma linha invisível que atravessa o tempo. Mais longa do que a história pode contar, fiada por misteriosa matéria inquebrantável. Perene e sorrateira, a linha perfaz tudo. Transpõe geografias e temporalidades. Em pontos muitíssimo distantes, gesta fortuitos enlaces, revelando a existência de uma sensibilidade compartilhada, de ordem universal. Admiro os nomes que lhe são atribuídos, desconfiando que nenhum possa transmitir a sua totalidade. Em Manifesto ainda que tardio, Rubem Valentim dizia: “(…) procuro transformar em linguagem visual o mundo encantado, mágico, provavelmente místico que flui continuamente dentro de mim” — suspeito que seja a linha que atravessa as décadas e um oceano, até aqui.

Numa mensagem, Sara Chang Yan me conta que é como “uma intuição, uma ideia, um gesto, um sentir, um movimento, uma frase, um ver, uma direção” e, então, a obra surge. Viriam do mesmo “mundo encantado, mágico, provavelmente místico” que fluía continuamente dentro do artista brasileiro? O que aproximaria duas práticas tão distintas, e tão distantes no tempo e no espaço? A linha é uma visualidade criada para falar sobre aquilo que permanecerá sem ser nomeado. Pois chamá-la “espiritualidade” não designaria a multiplicidade das suas misteriosas manifestações. “Fé” ou “crença” tampouco abarcariam toda a sua complexidade. É preciso inventar maneiras de ludibriar a vocação que os nomes têm para aterrar a imaginação a significados convencionados, demasiadamente rígidos. Retirar da linguagem o fardo da nomenclatura.

Ao longo de sua prática artística, Sara Chang Yan tem se dedicado a uma investigação que encontra eco nessas ideias. Através do desenho, tem procurado retirar do mundo as suas imagens. Dos sons, a sinfonia. Como uma feliz obstinação, de quem busca dissolver a condição concreta de cada elemento em essencial vibração, transcendência, sentimento, movimento, presença… Busca uma vida interna das coisas e dos seres, que interessa na medida em que possa ser sentida e compartilhada. Que não esteja intrinsecamente vinculada a postulados filosóficos, mas também não se deixe guiar por prescrições religiosas. Que seja, antes, uma vida interna mística, autônoma em relação a qualquer tradição do pensamento.

Não deixa de ser curioso que, nesse fazer-caminho, a artista não transpareça nenhuma pressa. Nem mesmo uma obrigação em alcançar um ponto de chegada, limite absoluto da descoberta. Na verdade, parece ser a própria procura que a apraz. O fazer que se revela caminho, e o caminho que se revela infinito…

Nessa procura, quando Sara Chang Yan “esvazia” uma sala — como quem “esvazia” um quadro —, parece dar lugar a uma reflexão sobre aquilo que permanece. Quando as luzes esmorecem, o corpo parece querer ser docemente acolhido pelo espaço ensombrado. Quando dois centros luminosos cintilam nas paredes, o desenho se insinua através de outra materialidade. Quando a escura superfície do piso se prolonga verticalmente, o equilíbrio entre os pólos sugere-se frágil. Céu e chão ensaiam uma dança permeada por cores e vibrações. Na atmosfera que a artista confabula a partir de gestos aparentemente mínimos, o silêncio meditativo encontra refúgio nos interstícios de uma deriva sonora. Aí, então, uma espacialidade atravessa tudo.

creditos © tspt

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /