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Tiago Madaleno — Noite de Núpcias
UMA CABEÇA DO TAMANHO DE UM QUARTO (de núpcias)
Tiago Madaleno parte da possibilidade de uma cabeça separada de um corpo. E, sobretudo tratando-se da cabeça de Descartes, será certamente uma cabeça material, mas uma cabeça que não terá na materialidade a sua maior expressão.
A condição de se separar de um corpo lembra-nos uma materialidade que esquecemos que as nossas cabeças têm, sobretudo se formos filósofos…
Claro que a uma cabeça sem corpo, corresponderá certamente um corpo sem cabeça, mas vamos deixar esse corpo a pairar algures fora deste texto (mesmo que o assombre, inevitavelmente).
Uma cabeça que, com ou sem corpo, tem na sua memória o facto de Descartes (como nos informa Tiago Madaleno) gostar de a colocar no forno para poder pensar melhor.
Uma história bizarra e desafiante nas consequências que possa ter no estudo do pensamento de Descartes. Aqui mais ainda, ao assumir outra forma de apresentação, no contexto das artes plásticas.
O artista ao enunciar este facto abre, na sua condição de artista, todo um campo de possibilidades de relação que, uma vez lançadas, são indomáveis no seu alcance.
Esta exposição é apresentada agora e é, obviamente, na sua experiência actual que se desenvolve a nossa percepção desta história.
Imaginando uma cabeça num forno, pela nossa experiência com fornos (desde logo a experiência doméstica), imaginamos uma cabeça num pequeno espaço ortogonal. Sobretudo tratando-se da cabeça de um filósofo, podemos imaginá-la como um contentor de um pensamento que, sendo aquecido, vê aumentada exponencialmente a tendência de não se conformar a estes limites exíguos. Uma cabeça que, inevitavelmente, irá explodir. Explodirá, lançando os seus pedaços no Espaço, em todas as direções.
Mas este Espaço tem limites, e esta cabeça expande-se estabilizando ao ser modelada numa forma ortogonal como o forno que a contém (e a detém na sua expansão). Lembrando-nos do título desta exposição, podemos dizer que este Espaço é ortogonal como um quarto.
Felizmente os quartos nas noites de núpcias, desejavelmente orgásticos, ao sê-lo, são ortogonais, mas esquecem-se de que o são.
António Olaio, Coimbra 6 de Março de 2019
créditos © photodocumenta
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HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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