Marco Pires — Toporama
Composta por uma série de dez desenhos, quatro pinturas e uma instalação, o termo TOPORAMA indica uma passagem de uma síncrese, ou seja, uma união indiferente e indiferenciada de dois conceitos tidos como antagónicos, a uma síntese. Nesse sentido, Marco Pires agrega e funde duas disciplinas aparentemente irreconciliáveis, uma do domínio das ciências exactas (a topografia) a outra do domínio das artes visuais (o panorama). O que esta síntese representa é um questionamento e problematização dos limites da cartografia e da pintura. Nesse sentido, as interrogações que a obra de Marco Pires pretende articular são várias, entre elas, Será que a transcrição do nosso planeta, da nossa cidade, do meu bairro, para um mapa poderá alguma vez ser universal e exacta uma vez que um mapa resulta de um trabalho de compromisso e selecção, e portanto, de omissão? Que tipo de distorções é que são geradas pela projecção de um mundo tridimensional, complexo e sobrepovoado, para um plano bidimensional, rectangular e desabitado? Que informação é perdida nessa transferência? Quem é que encomendou este mapa? A quem é que este mapa serve?
Mais do que oferecer soluções, de criar um discurso da reificação, Marco Pires procura contestar a ilusão empírica do mapa enquanto criação mimética e desinteressada da realidade através da sua prática pictórica de apropriação e sobreposição de fragmentos e pormenores. Através desta acção, Pires dissocia e estranha o mapa da sua função primeira – de localização – e atribui-lhe um novo propósito que lhe permite interrogar o espaço e explorá-lo enquanto conceito, ou seja, enquanto categoria interpretativa mais do que um elemento estritamente científico, do domínio da mensuração.
Deste esforço resultam dez desenhos que mostram a elevação de um terreno não identificado, chamemos-lhe virtual, sobre o nível do mar, quatro pinturas onde diversos raios e cotas mostram a incidência da inclinação e exposição da terra sobre uma superfície de acrílico inexpressiva, de cor indistinta, e uma instalação de título Rebatimento #4, que constrói uma síntese do que são os princípios fundadores dos agentes da relação do espaço e da sua representação. Aqui, Pires baseia-se no sistema de dupla projecção ortogonal criada por Gaspard Monge no século XVII para reflectir sobre um dos métodos mais utilizados na representação do espaço e de objectos na sua relação tridimensional. Por aproximação ao conceito de Monge, a peça exibida é construída por doze planos ortogonalmente dispostos e desenhando um ângulo agudo comum com o plano da parede, simulando um movimento de charneira entre si.
Marco Pires (n. 1977) é licenciado em pintura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa. Foi nomeado para o III Prémio de Pintura Ariane de Rothschild em 2007. Entre as suas mais recentes exposições individuais destacam-se Displacement Maps (2007) e Horizon (2005) na Galeria Pedro Oliveira, ou a participação nas exposições Cidades Invisíveis: Obras da Colecção da Fundação PLMJ, exposição integrada na Trienal de Arquitectura de Lisboa em 2007, ou Representações da Ciência na Arte Contemporânea, no Museu Nacional da Ciência e da Técnica em 2005.
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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