Carlos Roque — Conspiração, Profecia e Utopia

Zonas de Fronteira.

Carlos Roque apresenta nos dois espaços da galeria trabalhos em suporte vídeo e desenhos que testam a nossa compreensão sobre a representação do universo urbano que conhecemos. Estamos perante imagens que actuam como um momento transitório entre a hipotética verdade que evocam e uma possível ficção, herdada da utopia modernista presente nos modelos urbanos que habitamos.

Uma das obras é bastante reveladora do seu processo de trabalho. O desenho a marcador é executado com um traço firme e decisivo, que lhe permite utilizar o detalhe, o símbolo ou o signo, que interessa destacar e que a fotografia inibe. A superfície lisa e absolutamente branca da tela recebe a projecção de uma tempestade de relâmpagos e nuvens poderosas que exaltam a Deusa da Vitória que se ergue na cidade de Berlim. A coluna que a eleva transforma-se numa sucessão de anéis que reforçam, sob um olhar mais atento, essa figura que simboliza o esplendor e aura dourada dos vencedores. A obra representa um momento próximo da experiência do sublime, mas é simultaneamente um confronto para o imaginário colectivo, enquanto símbolo do poder político e como revisitação cinematográfica, tão cara ao autor. A firme depuração gráfica é denotativa da atenção sistemática que o artista exerce sobre as imagens que recolhe. Carlos Roque trabalha on the road, fazendo registos fotográficos e videográficos no decurso das suas viagens até outras cidades, ou por vezes apenas até ao outro lado da imensa cidade onde vive, Nova Iorque.

A cultura urbana é para Carlos Roque um lugar para resgatar as zonas de fronteira, por vezes indistintas, onde carrinhas de distribuição, ladeadas por graffiti, se confundem com edifícios estatais, vias de comunicação, anúncios de produtos a baixo preço, ou um homem caminhando solitário sob as palavras “NEW CENTURY”. Nos seus desenhos associa, como se o nosso olhar fosse absolutamente permeável, construções de grande escala em que os símbolos de uma arquitectura do poder se cruzam com uma outra iconografia, (sub)urbana e pulverizada por elementos ligados ao imaginário quotidiano.

Sob o título CONSPIRAÇÃO, PROFECIA E UTOPIA, o autor confronta-nos com a subtil irrisão do seu olhar sobre um futuro antes anunciado, que é hoje um fragmento disperso de memória da utopia modernista. Tomando como ponto de partida o artigo “Thinking Futures” de Daniel Rosenberg e Susan Harding, na revista Cabinet, n.º 13 (Primavera de 2004), Carlos Roque desenvolveu uma série de reflexões sobre a profecia que o projecto modernista constituiu para o imaginário colectivo, e sobre a sua influência na sociedade contemporânea. O futuro anunciado, criador do desejo por uma sociedade tecnologicamente avançada e perfeita, é apenas reconhecível na nostalgia de um horizonte utópico e irrealizável.

João Silvério
Janeiro de 2009

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /