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Eduardo Freitas — Natureza-Morta
Curator: Mercedes Vidal-Abarca and Diogo Ramalho In co-operation with Córtex Frontal
Esta exposição, acima de tudo, fala-nos da pedra.
Pedra, enquanto a substância sólida e compacta que forma as rochas, mas também matéria leve, maleável e construtora de significados.
Mas, por outro lado, também nos fala de caçar.
A palavra ‘caçar’ vem do latim ‘capto’, que significa apanhar, agarrar. Na Pré-História, os nossos antepassados utilizavam a pedra como ferramenta essencial para a caça, afiando-a para criar facas e lanças que garantiam o sucesso na captura das presas. A este acto de agarrar está inerente uma intenção predatória, de controlo, mas contrariamente, também de conexão com a própria natureza, física ou espiritual.
Eduardo Freitas é apreciador da dualidade, do duplo sentido e do jogo. E não é por acaso que ‘jogo’, ‘game’ na língua inglesa, é também sinónimo de caça. A ancestralidade da pedra, aliada dos caçadores, é o ponto desta instalação. ‘Kill two birds with one stone’ (matar dois pássaros com uma só pedra, equivalente ao português ‘matar dois coelhos de uma cajadada’) poderia ser o convite para olharmos agora para a sua ‘Natureza-Morta’.
Natureza-Morta, 2023-24
Mármore de Pardais (Vila Viçosa)
Dimensões varíaveis
A Natureza-morta foi uma tipologia recorrente na Arte. Serviu ao longo de séculos como o retrato do quotidiano e da sua domesticidade, mas foi também auxiliar soberano aos estudos de composição, luz, sombra, cor e textura na pintura. Na sua capacidade de retrato, transmite de várias formas o simbolismo de uma natureza onde a presença humana nos aparece omitida. Neste seguimento, Eduardo Freitas propõe uma releitura das tradicionais pinturas de género através da pedra.
Eduardo Freitas desenvolve uma prática abrangente e heterogénea, caracterizada por um sistema consistente de investigação e experimentação interdisciplinares. As suas obras configuram-se sempre como um conjunto de ações, num pacto negociado entre escultura e performance. As propostas actuais de Eduardo Freitas não poderiam estar dissociadas de uma prática que tem vindo a desenvolver, nos últimos anos, no departamento de escultura em pedra da Pó de Vir a Ser, instalada no antigo Matadouro de Évora.
A presença massiva e repentina de pombos no antigo matadouro deu início a uma exploração dos rituais e actos de ‘caçar’. Para o espaço expositivo trouxe um conjunto de pedras que emergem do chão e ganham verticalidade. Formam com os pombos que as invadem, uma centralidade que oscila entre o material e o imaterial. Cada pedra carrega consigo não só a história da sua formação, mas também o sulco das forças que a moldaram. A habilidade de esculpir e manipular a pedra revela uma subtileza inesperada, num contraste evidente entre a rigidez da matéria e leveza que exprime. Na tentativa predatória de apanhar, de agarrar, surge nesta ‘Natureza-Morta’ um diálogo e reflexão sobre peso e gravidade, sobre leveza e equilíbrio.
O projecto de criação contou com o apoio da Fundação para a Ciência e Tecnologia e da Associação Pó de Vir a Ser, em Évora.
Eduardo Freitas (Brasil, 1990) Vive e trabalha em Portugal desde 2017.
É doutorando no curso de Arte Contemporânea na Universidade de Coimbra (Bolseiro FCT), e concluiu o mestrado de Práticas Artísticas em Artes Visuais (2019), na Universidade de Évora.
Expõe regularmente, destacando-se as exposições colectivas e individuais: XXIII Bienal Internacional de Arte de Cerveira (Cerveira, PT 2024); Planta de Emergência (Projeto Com Data e Hora Marcada), Oficinas do Convento em parceria com Associação Pó de Vir a Ser, Osso – Associação Cultural e Maus Hábitos (Montemor-o-Novo, Évora, Caldas da Rainha e Vila Real, PT 2024); En.talho, Galeria Municipal (Montemor-o-Novo, PT 2024); Em.prego, La Junqueira Artists Residency (Lisboa, PT 2022); Tracing the Infrathin, Galeria Monitor (Lisboa, PT 2022); Em Tempos de Opacidade, Centro de Ação Cultural (Maringá, BR 2022); Concurso/Prémio Arte Jovem Fundação Millenium BCP (Lisboa, PT 2020); Memórias Disruptivas, Museu de Arte Contemporânea do Paraná (Curitiba, BR 2019).
O seu trabalho foi premiado variadas vezes, nacional e internacionalmente. Entre as residências artísticas que realizou, destaca-se a colaboração contínua com a Associação Pó de Vir a Ser (Évora) nos últimos anos.
As propostas de Eduardo Freitas exploram as linguagens artísticas híbridas para abordar questões relacionadas com o corpo, o trabalho, a materialidade, a tradição e a intersubjetividade. O artista, que na sua infância e juventude, paralelamente aos seus estudos artísticos, conviveu e trabalhou na indústria da restauração, traz para o seu trabalho o imaginário da comida, os rituais comensais e o ato de comer e cozinhar como ações artísticas. Nessa perspetiva, Eduardo desenvolve “ações escultóricas” que estreitam a relação entre o público e a sua prática artística, estabelecendo um vínculo entre a sua vivência pessoal e as memórias, histórias e lugares do “outro”.
credits © pedro tropa
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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