Adelhyd van Bender | John Urho Kemp |
Pepe Gaitán | Melvin Way — Cracking the code
Curator: Antonia Gaeta
Sob a nomenclatura de arte bruta
Formas geométricas e campos coloridos, grafismos matemáticos e desenhos celulares, a inexistência das margens, o relevo, a estrutura, indicações sobre como conseguir milagres. Há qualquer coisa de desorientador na forma como este conjunto de obras reunidas na exposição cracking the code na Appleton Square, nos levam a perder o pé, imersos em motivos saturados, cálculos e ritmos fracturados.
A exposição reúne a obra de quatro artistas, Adelhyd van Bender (1950-2014, Alemanha), John Urho Kemp (1942-2010 Estados Unidos), Melvin Way (1954, Estados Unidos) e Pepe Gaitán (1959, Colombia), cujos universos se baseiam em estruturas complexas e crípticas, sistemas atómicos e de amebas, repetição e alterações iterativas cuja interpretação pode ser imaginada próxima da descodificação de um código.
Apropriação, manipulação e montagem são, pois, os eixos em que assenta a prática destes artistas que se resolve na construção de narrativas tão intrigantes ao nível do sentido quanto fascinantes do ponto de vista visual.
Na sua acumulação obsessiva Adelhyd van Bender desenha, escreve, fotocopia, recorta, cola e retoca milhares de folhas de papel até tornar o texto quase ilegível. Central no seu trabalho é a ideia de que ele carrega um útero feminino no qual guarda um “segredo atómico”. Mas também aparecem nos seus desenhos o cubo, associado ao símbolo da Ka’aba e constelações planetárias assim como umas repetições infindas de cálculos necessários para ascender ao paraíso. Nos seus arquivos Adelhyd van Bender guarda contida a força do universo organizada em micas de plástico e salva do caos.
John Urho Kemp, também conhecido como Crystal John, membro da Divina Metaphysical Research, faz parte daqueles artistas mediúnicos que procuram interpretar o mundo com a ajuda da meditação, da metafísica e através de fórmulas enigmáticas e números que tem por base visões e meditações sobre os mistérios do universo. Kemp concebe o seu trabalho inteiramente votado à difusão e à partilha: o original serve exclusivamente a ser reproduzido. Ele, então, fotocopia os seus trabalhos e os distribui como se fossem panfletos para partilhar esta sabedoria sagrada com os outros.
Alfabeto e algoritmos ópticos, desenhos de células, números que seguem uma estranha sequência, iniciais, símbolos, pontos de exclamação. E ainda pontos, traços, parêntesis, letras que sobressaem são as informações contidas nas obras de Melvin Way. Espreitando através da fosca cinta scotch e olhando os desenhos dos embriões, membranas celulares, esperma, estruturas multicelulares de plantas que contêm ovos, ou gâmetas femininos, longevidade, palavras sem sentido, a formula química da canela, presume-se que essas folhas, cobertas de equações abstrusas e figuras geométricas, sejam um talismã ou amuletos, ou imagens votivas para desviar a má sorte.
A obra de Pepe Gaitán é povoada de amebas. Todos os dias ele trava a sua luta às amebas repetindo o mesmo processo: na biblioteca selecciona com minuciosidade textos e páginas de livros em função dos caminhos e dos espaços que existem entre as letras, as palavras e as frases que fotocopia e intervêm inicialmente, apagando a maioria das letras e sucessivamente, acrescentando colagens de imagens e símbolos, manchas de tinta de china, vórtices e elementos arquitetónicos. No seu delírio Gaitán assimila as palavras dos textos aos vírus e cada página acaba por esconder as amebas que ele identifica como “pseudópodes”. O medo de ser destruído desde o interior por uma presença inquietante de pseudópodes faz com que Gaitán crie uma obra labiríntica capaz de erradicar a ameaça desta invasão e que responde a uma necessidade existencial – e se funde com o esforço para se reconstruir psicologicamente após o colapso psicótico.
O conjunto de obras em exposição deixam no ar a sensação de longas narrativas, em que a ligação entre sucessivas impressões parece escapar-nos por entre os dedos. É este o espaço que a exposição cracking the code potencia, nas relações complexas e simbióticas entre forma e conteúdo, pela subjectividade inerente à manipulação das obras.
Antonia Gaeta
Setembro, 2016
credits © Bruno Lopes
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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