Jorge Humberto – JOH — Tradutor
O trabalho que JOH (Jorge Humberto, Lisboa, 1960) apresenta na sala da Appleton Square evoca o ofício do pintor. As tintas aplicadas sobre a tela são feitas pelo artista, recuperando o labor anterior ao acto de pintar, que aqui não existe enquanto acção de um instrumento sobre uma superfície, determinando a expressão do gesto pela sua fluidez – mais densas ou mais espessas, e desta forma mais rápidas ou mais lentas. Ou seja, o tempo é aqui o denominador principal da pintura como inscrição da memória do corpo sobre o espaço frontal da tela, como se esta fosse (e será?) o ecrã visível, e deste modo o tradutor, da prática do artista.
Estas pinturas podem fazer-nos passar pela revisitação da história da arte, pelo gestualismo – em que o dripping parece ocupar o seu lugar –, pela presença submersa de autores como Agnés Martin, Mondrian presente através da citação, inconformada, das três cores primárias tão caras a este artista, ou por um sopro difuso da obra de Brice Marden.
No entanto, a malha tecida em forma de grelha “solta” é enganosa e tende a prender-nos na visualidade aparentemente simples que a paleta económica sugere. É aqui que a tradução pode assumir-se como categoria que permite verter uma prática noutra. Uma é invisível para o espectador, está destinada ao acto do corpo sobre a matéria. A outra, a que é visível, é redentora da primeira e suporta o vocabulário assente na superfície da pintura. JOH não pinta, no sentido mais lato do termo, sobre a superfície da tela. Distende sucessivamente linhas de tinta, procurando o rigor que somente o controlo do seu corpo observa, e persegue uma multiplicidade de aproximações à grelha como tessitura e interstício de uma geometria simples, ortogonal, académica, modernista, abstracta e porventura possuída de uma vontade arquitectónica. Contudo, a grelha sucumbe à acumulação obsessiva que a sua prática exige, postulando em simultâneo a exegese e o excesso, como se a malha espessa convocasse o monocromo e, ao mesmo tempo, a polissemia tonal patente nas pequenas diferenças cromáticas e volumétricas que nos devolvem o movimento do corpo e a sobreposição da matéria como acção repetida e persistente. Mas é com a presença dinâmica do espectador em frente à obra que a leitura se presentifica como momento de reinterpretação.
O Tradutor pode, então, ser entendido como aquele que circula entre a memória do fazer e a experiência do que aparentemente está finalizado. Este é o momento para reler e, assim, voltar a ver.
João Silvério
Fevereiro 2011
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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