Luis Espinhieira — Knowing that one is looking at the mirage and not at real water doesn’t make the mirage disappear
O equívoco produtivo
Luís Espinheira nasceu em 1979 no Porto, aí se formou em Pintura, aí vive e trabalha. É representado pela Galeria Pedro Oliveira. Na sua exposição na Appleton Square apresenta uma vertente do seu trabalho que tem vindo a ser desenvolvida num outro tempo, secreto, pausado, que se desdobra em traços largos, a partir dos equívocos que a “realidade” – com uma inusitada associação à surpresa – nos pode conduzir aquando reproduzida pela imagem fotográfica. O equívoco é duplo – de natureza acidental ou ainda dando origem a uma sensação de estranheza – e, ocupa distintos momentos de actuação: no imprevisto que irrompe no processo de trabalho do artista, na desorientação que ocorre na (nossa) leitura das imagens produzidas.
Knowing that one is looking at a mirage and not at real water doesn’t make the mirage disappear
Aqui, a miragem é entendida na recusa dos seus próprios desdobramentos e.g. decepção, simulacro, ilusão – porque a sua produção conduz-nos a uma realidade outra. Afastamo-nos da causa científica, física ou química que produz uma miragem, ao mesmo tempo que nos distanciamos do processo, que lhe é semelhante, da fotografia analógica – técnica de trabalho eleita pelo artista ainda que na produção das suas imagens inclua processos digitais. Aproximamo-nos sim, da miragem enquanto ideia ou entendimento do mundo. Surge-nos ser a proposta do artista. A título de exemplo, um dos projectos em que Luís Espinheira trabalha actualmente prende-se com o desejo de registar o movimento da terra no espaço fotográfico. Que outro dispositivo que não a procura do resultado de uma miragem poderá alcançar tal intenção?
O programa proposto pelo título da exposição nomeia a experiência que as obras apresentadas nos dois pisos da galeria nos devolvem. No piso -1, espaço que é como que o negativo da galeria supra, é apresentada a instalação «Scan this». Esta configura uma espécie de câmara obscura, em que tudo é, potencialmente, filtrado pelo movimento de um scanner que em vez de identificar um determinado objecto, o transforma numa imagem, revelada de modo fragmentado e que tem, de facto, as mesmas propriedades e qualidades de uma miragem: exige a nossa criatividade na sua construção. Como num deserto, um estrangeiro fica sem referências e facilmente se perde e, a convivência com o vazio, o sol, a luz fá-lo projectar nesse espaço sem coordenadas parte da sua memória ou herança cultural.
Novamente, a miragem enquanto reconfiguração de um imaginário colectivo, aqui, no espaço fotográfico. No piso térreo da galeria são apresentadas três imagens que, ainda que autónomas, fazem parte de uma série intitulada «Error». As imagens são compostas por fragmentos de negativo (acidentes mais ou menos controlados: a mudança de rolo na máquina, o esquecimento, a entrada da luz na câmara escura, etc…) que são reproduzidos e compõem uma imagem sem referências, que nos cabe criar. Em contraponto a esta quase imaterialidade que nos é proposta nas peças que até agora tacteámos, o artista apresenta ainda uma instalação que ocupa o espaço físico da galeria, que partilhamos. Os eixos/coordenadas de um canto da sala de exposição são preenchidos/indicados por uma escala de cinzas. Se num primeiro momento, esta peça surge como um espaço “seguro”, rapidamente dá lugar ao espaço do equívoco produtivo, àquele que nos conduz a realidade trabalhada por Luís Espinheira.
Setembro, 2010
Maria do Mar Fazenda
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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