Miguel Vieira Baptista — Drawer
Tendencialmente o objecto de design é visto como um produto funcional e superficial. Com o objectivo de desmistificar os estereótipos em relação a esta disciplina, o presente projecto insere-se numa tendência internacional de retirar o objecto de design da loja e trazê-lo para o contexto galerístico, não no sentido apenas de descontextualizar o objecto, de o isolar de um discurso meramente comercial, mas com o principal propósito de desvendar o processo de pensamento que o antecede. Assim tem sido a aposta de Miguel Vieira Baptista (Lisboa, 1968), interessado na legitimação da própria disciplina do design valorizando o discurso da experimentação e a lógica do atelier, e não apenas na relação com a industria. A sua estratégia dicotómica iniciou-se com uma exposição na Loja da Atalaia em 2001, e teve continuação na Galeria Cristina Guerra em 2005 e na Marz Galeria já em 2009. E é exactamente na sequência deste percurso que ocorre a presente exposição “Drawer” na Appleton Square.
O título da exposição referencia duas dimensões das obras apresentadas: por um lado drawer no sentido de gaveta, das ideias que ficam guardadas no atelier à espera do momento certo para ganharem vida. Por outro, drawer como aquele que desenha, que pensa através do desenho.
O desenho é uma ferramenta central no desenvolvimento das obras deste designer e, por esta razão, apresenta vários projectos – alguns realizados, outros não, outros ainda, impossíveis de serem concretizados. Simultaneamente expõe duas esculturas que se assemelham a volumes para a aprendizagem de geometria. No interior de um cilindro, aparece vazado um hexágono que dá origem, em cada uma das obras, a uma forma geométrica diferente. Se no exterior as estruturas parecem iguais, num olhar mais atendo se percebe que são, como afirma o titulo, gémeos falsos. De geometria e ilusão, tratam também dois espelhos que incorporam no mesmo material duas prateleiras (uma lateral e outra horizontal por debaixo do espelho) as quais criam uma espécie de semi-moldura e que multiplicam a imagem.
Quis Miguel Vieira Baptista também explorar nos objectos que apresenta a materialidade de uma forma pura. Como a mesa feita em cimento em forma de ‘i’, que se assemelha a uma viga cortada e que tem inscrito o peso em relevo – 47kg. A inclusão do peso torna mais presente o material em que é construída.
A disposição das obras no espaço da galeria salienta a dimensão da gaveta, dando vida à expressão: “guardados a um canto”, e é exactamente a um canto do espaço expositivo que quase se amontoam as peças. FO
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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