Filipe Alarcão — Partícula

Esta é uma exposição de design.

“Ceci n’est pas une pipe”. As implicações da frase inscrita por René Magritte na pintura La trahison des images, (1928–29) excedem em muito as intenções do artista belga. O pintor belga pretendia apenas denunciar a falácia mimética que acompanhou, durante séculos, a prática artística. O artista reclamava unicamente a ausência de um cachimbo da sua composição pictórica: isto não é um cachimbo, é apenas a imagem de um cachimbo, explicaria Magritte. A obra (prima) faz implodir aparentemente, e na sua aparente simplicidade, a mais básica (mas sagrada) tríade de correspondência semiológica – objecto – imagem – palavra. Não será por acaso que Michel Foucault lhe dedica um conjunto de reflexões.

Mas estará o cachimbo realmente ausente da obra de Magritte? Estarão os objectos realmente ausentes das representações que deles se fazem? A representação não se situa aquém do objecto, mas ultrapassa-o ao referir-se ostensivamente a ele. Isto não é um cachimbo porque é muito mais do que isso, poderia ter escrito Magritte. E neste sentido, Partícula, também, não é uma exposição de design.

Filipe Alarcão, designer[1], traz para o território da galeria uma reflexão sobre o estatuto ontológico e axiológico dos objectos na contemporaneidade. E haverá, hoje, reflexão mais premente do que esta? A partir da recolha de fragmentos de objectos, na topografia granular da praia, o designer resgata entidades plásticas, e de plástico, do purgatório estético e funcional a que estavam confinadas, desenhando-lhes uma pós-vida. O fragmento de um objecto primeiro (desagregado) transfigura-se em partícula, parte participante de uma nova composição objectual.

Este acto de libertação é imediatamente anulado pela acção subsequente, a de enclausuramento em blocos de acrílico – jaulas higiénicas ou escaparates translúcidos – , em transparências opacas. E é nessa opacidade que estes elementos revelam tudo aquilo que escondem, um fora-de-campo temporal, um momento outro, anterior ou posterior: aquilo que o objecto foi, é e poderá vir a ser. Este movimento ambíguo de libertação e aprisionamento derroga o jogo da referencialidade simples.

Contudo, mais do que a ex-posição de cada partícula, é a exposição do objecto que importa. Não é inocente que o dispositivo capsular escolhido pelo designer exerça uma força de ampliação sobre cada elemento, mostrando-se como uma espécie de lupa que o destaca e isola na sua (recente) singularidade identitária. Estas partículas dilatadas, dispostas e expostas sobre um plano horizontal, apresentam-se enquanto objectos totais, sujeitos a uma qualquer alquimia do congelamento, formações holísticas na sua ontologia plástica, que não devem ser lidos/observados segundo uma lógica dissociativa recheio-invólucro. O bloco de acrílico resiste à condição de receptáculo: a relação que se estabelece entre o interior e o exterior mais do que proxémica é simbiótica.

A exposição, bem como todo o aparato de exibição, oferece, consoante o distanciamento físico e a formatação conceptual, possibilidades de leitura/observação distintas: a de um conjunto de objectos ou a de um objecto composto. Na disposição de Alarcão (em que se distingue a lógica warburguiana da boa vizinhança) persistem, por um lado, palimpsestos do objet trouvé modernista , dos gabinetes de curiosidades seiscentistas, da pulsão coleccionista atemporal. Por outro, o que o designer propõe, sempre enquanto designer, não é uma (retro)genealogia da arte, nem sequer das imagens, mas sim do objecto, variável constante do acto criativo.

Se o objecto físico foi alguma vez ostracizado do campo da representação, nesta exposição o objecto é representação pura, a exposição apresenta-se como uma meta-reflexão da representação objectual: o que é que representa um objecto que se representa a si próprio? O processo metamórfico a que cada partícula foi sujeita (a sua re-objectificação e não reificação) desafia o regime escópico contemporâneo, exige uma nova literacia valorativa do visual, uma nova postura perante o objecto de design enquanto objecto único. A coisa desenhada, funcional e operativa, adopta a condição aurática da obra única.

O trabalho de Filipe Alarcão transforma, assim, o território da galeria em lugar heterotópico, sítio outro, onde nenhuma linguagem estética ou formal se insurge de forma hegemónica: o espaço da alteridade artística acategorizada. Esta não é uma exposição de design porque é muito mais do que isso.

Esta é uma exposição de design.

Ana Cristina Cachola
(Junho de 2012)

[1] Filipe Alarcão, designer foi o subtítulo da exposição Introspectiva patente no Mude – Museu do Design e da Moda, Colecção Francisco Capelo entre Setembro de 2011 e Janeiro de 2012.

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /