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Maria Ana Vasco CostaIce Ice Baby

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I’ve tasted of desire
I hold with those who favor fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

Robert Frost, 1920

Lisboa, 8 de Abril de 2021

Meu querido amigo,

Este poema, que fala sobre o fim do mundo tem cem anos. Já são muitos anos a falar sobre o fim do mundo. Não sei como o imaginarias enquanto por cá andavas mas parece-me mais fácil imaginar um fim explosivo de calor, dado todo o contexto de alterações climáticas, do que gelado. Por outro lado observo um mundo mais vazio de afectos, mais próximo do ódio rápido, cada vez mais distante da necessidade da presença e por isso mais frio, agora potencializado por esta pandemia.

Mas não te escrevo por isso, mas sim porque voltei a tropeçar em ti, como quando no teu atelier no Alandroal tropecei literalmente numa das tuas “dna stones” e ia caindo no chão. Lembro-me de te pedir mil desculpas por quase pisar uma obra tua e de tu começares a rir a explicar calmamente que não me preocupasse, não era uma obra tua mas do acaso, era só uma pedra cheia da tinta que sobrava enquanto pintavas.

Voltando atrás, começo a carta com este poema do Robert Frost porque tropecei em ti quando conheci melhor o trabalho artístico da Maria Ana Vasco Costa cuja exposição inaugura agora na Appleton e se chama “Ice Ice Baby” numa efémera homenagem à música hip hop de mesmo nome, que marcou a minha geração e a da artista. “Ice Ice Baby” porque quando entramos na sala sentimos frio e sentimos vazio, somos transportados para a Antártida e os seus glaciares, encontramos então uma paisagem e um ambiente que poderão ou não estar próximos desse fim anunciado de luz branca e gélida.

O meu primeiro encontro com Maria Ana e contigo aconteceu então quando visitava a sua primeira individual “Água d’Alto”. A dada altura, quando me afastava para observar com mais distância um desenho de aguarela que tinha colocado na parede, quase caí quando senti uma das suas esculturas a tocar na parte de trás da minha perna. A Maria Ana não viu, e esteve tão longe de ser um acidente que guardei o segredo para mim e sorri sozinha por me trazer uma lembrança doce e feliz. Naquela exposição as esculturas de chão, semelhantes a pedras, mas desta vez tudo menos obras do acaso, eram peças centrais. Os desenhos na parede eram reflexo no papel do que a artista fazia na cerâmica.

Mais tarde a aproximação a ti pareceu-me mais óbvia. Foi quando visitei o seu atelier e percebi que as esculturas perdiam escala para que os desenhos a que chama “Glaze drawings” crescessem. Estes desenhos que congelam um momento, impressionistas no seu sentido literal, ganharam uma profundidade quase transcendente, em contraste com as esculturas de cerâmica vidradas, ligadas à terra, que passaram a ser chão e referencia de espaço e vida para a artista.

Com esta mudança voltei a lembrar-me das tuas “dna stones” e das tuas pinturas – paisagens que nos engolem e hipnotizam: por um lado as esculturas que a Maria Ana instalou na sala da Appleton mostram-nos o seu adn artístico que está inevitavelmente ligado à materialidade da cerâmica mas não obrigatoriamente ao objecto escultórico; por outro somos confrontados com um “Glaze Drawing” de grande escala que congela um momento de domínio total do espaço.

São aproximações formais e curiosidades ou coincidências, o que me faz estar a escrever para ti sobre este encontro. Neste período de produção e montagem conversei com a Maria Ana sobre a sua ligação tão profunda à natureza, sobre a questão do movimento no seu trabalho, a importância de “captar um momento” que fique “congelado” através da obra que cria, e neste caso específico no interesse pela materialidade da cerâmica, nos reflexos e cores que o vidrado lhe atribui, e na apropriação do papel para aplicar esse acabamento transformando-o num novo assunto, explorando assim novas possibilidades dentro de uma técnica que domina. Muito à parte destas questões mais específicas a Maria Ana fala muito em espiritualidade na relação com o seu trabalho artístico, e também por isso fui transportada até ti. Tal como no teu, encontrei no seu trabalho, essa profundidade e essa capacidade de nos transportar para um momento que está muito para além de nós, que nos transcende. Quem sabe o tal fim gelado e vazio, ou o outro quente e explosivo em que não sobra espaço entre nós.

“Ice Ice baby”, a música, é agora memória de um tempo feliz, grafitado de cores alegres, corpos próximos e ritmados. Um tempo muito distante deste “Ice Ice baby” minimalista, mas que contamos voltar a viver, antes que o mundo acabe, seja lá de que forma for.

Miss you a lot my dearest friend
Com um beijo daqui para o teu Céu
Vera

PS Ias gostar de visitar esta exposição, com toda a certeza não tropeçavas em nada, mas talvez nos ríssemos os três juntos do meu segredo.

créditos © bruno lopes

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