SQUARE

Carlos Nunes — Proncovô

proncovô, ou o desejo de evasão que se instala nos corpos.

Carlos Nunes (São Paulo, 1969) é um artista cujo modus operandi se encontra ligado a certos processos de espera, revelando um profundo interesse pelas possibilidades gráficas do signo e da imagem que alia a um saber fazer de certo modo artesanal, cuidado e distanciado de imediatismos superficiais. Existe uma obra de Carlos Nunes que, de alguma forma, define a longevidade da sua proposta: um processo sedimentado na importância de criar um clima baseado na amizade, de gerar um núcleo familiar em torno da arte – à margem de parentescos de consanguinidade – e de manter essa amizade, que se manifesta em gestos quase impercetíveis.

Amarelo-limão é uma serigrafia e um objeto que dá nome à cor dessa serigrafia. A assinatura, a tiragem e o ano da peça encontram-se nesse objeto perecível que dá nome à cor. Mas o que realmente me interessa é a sua circulação por intermédio do afeto. Por isso, elegi cinquenta amigos e companheiros que, de algum modo, estão ligados ao meu trabalho, para que o recebam. Comigo guardo apenas essa lista de afetos. Um abraço. Carlos.

A primeira vez que vi um desses limões assinados por Carlos Nunes, acompanhado por uma pasta com o título da serigrafia, o número de tiragem da mesma e o ano em que essa amizade fora selada, comecei a compreender a dimensão de muitos dos trabalhos que tinha observado no seu estúdio. Peças em repouso, entregues ao capricho de um processo executado pelo tempo, pelo passar dos dias, dos meses e dos anos e pela incidência do sol e/ou da acidez dos papéis baratos. Não estranhei o autorretrato fotográfico que em cada ano – e desde há muitos anos – Carlos Nunes tem vindo a fazer na companhia do seu filho Diego; os papéis de seda de diversas cores, pregados e afixados às janelas, aguardando a incidência do sol; ou as folhas brancas de papel de jornal, penduradas da parte mais alta do estúdio, cada uma mais amarelada do que a anterior e identificada com o ano em que foi instalada.

Releio os emails que trocámos ao longo dos últimos anos. No Brasil ou em Espanha, os nossos encontros são constantes, traduzindo-se em longas horas de conversas, de silêncios e de passeios. Numa dessas mensagens, concretamente naquela em que me mostrava as propostas que originaram as exposições a ira ria (apresentada no passado mês de julho na galeria Raquel Arnaud, em São Paulo) e proncovô (aquela que nos interessa agora, patente no espaço Appleton Square, em Lisboa), disse-lhe que descortinava em ambas a importância que, por vários motivos, o momento atual tinha no seu trabalho. Referia-me, por um lado, à confirmação de uma maturidade artística que fui detetando ao longo destes cinco anos, cujas propostas revelam já uma linguagem própria que remete para muitas outras referências – as quais o artista jamais nega –, mas que surgem agora a partir de uma posição muito definida, muito sua. E, obviamente, dentro desses motivos, identificava também a influência da situação política vivida no Brasil, um tema que geralmente ocupa grande parte das nossas conversas.

Em a ira ria, Nunes pretendia expor um projeto de longa duração, com início há alguns anos, fruto de um interesse crescente pelos palíndromos. Em 2021, este levou-o a construir uma torre de vários metros encimada pela expressão “a torre da derrota”, com a qual viajou na companhia do seu filho até Brasília, e que se revelou em toda a sua gravidade na galeria Raquel Arnaud. Na galeria Appleton, proncovô – expressão de Minas Gerais que significa “pra onde que eu vou”, relacionada com oncotô e quencosô, as três dúvidas existenciais básicas – retoma ensaios plásticos prévios, iniciados em 2019, com papéis de seda coloridos e linhas de fios de carácter estrutural, que reagem à passagem do espetador reforçando uma sensação de leveza.

Hélio Oiticica afirmava, em relação aos seus Penetrables, “[propor] uma ‘experiência vivencial aberta’ mais do que objetos vinculados a antigas ideias formais”, o que me faz recordar o efeito provocado por instalações como a que Carlos Nunes realizou em 2019 no Aomori Contemporary Art Centre, no Japão, num projeto intitulado oncotô, quencosô, proncovô. Este inaugurou o seu trabalho com papagaios de papel, objeto inventado na China por volta de 1200 a.C., cuja função inicial era a sinalização militar, mas que com o passar dos séculos acabou por se converter num brinquedo infantil.

Carlos Nunes, consciente da escassa inocência que ainda hoje reside no uso de um objeto como este, aborda proncovô através de várias camadas de significado: em primeiro lugar, a amplitude de possibilidades que os materiais e a estrutura dos papagaios de papel permitem a nível compositivo, mas também uma economia de recursos que, neste caso, alude ao motivo que o levou recentemente a mudar o seu estúdio para o bairro de Bixiga, na zona central de São Paulo, onde adquire a maioria dos materiais com que trabalha. Encontra-se também nos papagaios de papel o carácter simétrico – palindrómico – que tanto seduz Nunes e que, embora originalmente presente nos modelos clássicos dos papagaios, é modificado pelo artista quase sistematicamente, gerando composições não espelhadas, como se neste caso optasse por quebrar o equilíbrio. Além disso, o uso de papagaios de papel revela uma intenção política velada, a tal memória militar da mensagem no céu que avisa sobre uma presença indesejada; a do cerol – uma mistura de vidro moído e cola que impregna as cordas dos papagaios de papel, com o propósito de afiá-las para cortarem as linhas adversárias – e a do cidadão Carlos Nunes que se obriga a atravessar diariamente a cidade, percorrendo realidades diversas e tirando permanentemente a temperatura a um país que se afoga numa multiplicidade de males endémicos, atualmente agravados pelo governo genocida que o rege.

Também não podemos ignorar, ao caminhar entre as obras que compõem proncovô, a omnipresença dos papagaios de papel no céu dos bairros mais distantes do centro das cidades, ali onde o vento bate e onde, apesar de tudo, esses objetos enchem o horizonte de cor. Além disso, proncovô configura um inventário visual de uma parte da memória iconográfica brasileira, desde Meninos Soltando Pipas, de Cândido Portinari, aos Parangolés, de Oiticica, ou desde Alfredo Volpi e as suas recorrentes bandeiras festivas a Divisor, de Lygia Pape – tudo isto passando inevitavelmente pelo repertório visual geométrico da arte dos povos indígenas. Existe na cor, na geometria e no movimento uma expressão do desejo de evasão que se instala nos corpos. Esses mesmos corpos que, por sua vez, ativam a leveza destas composições que configuram espacialmente um percurso e que, de algum modo, transmitem sensações contrastantes, como a alegria e a ausência.

~ Ángel Calvo Ulloa

-O bom da pipa não é mostrar aos outros, é sentir individualmente a pipa, dando ao céu o recado da gente.
-Que recado? Explique isso direito! João olhou-me com delicado desprezo.
-Pensei que não precisasse.
Você solta o bichinho e solta-se a si mesmo. Ela é sua liberdade, o seu eu, girando por aí, dispensado de todas as limitações.

~ Carlos Drummond de Andrade

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /