SQUARE

Daniel Blaufuks — AND ALL WILL BE REPEATED

I am a candle burnt out at the feast
Gather my wax up at dawn,
And this page will tell you the secret
Of how to weep and where to be proud

Arseniy Tarkovsky

Protege a chama, frágil como uma relíquia. Caminha por um corredor de uma estrutura que poderia ser um navio ou um hotel, pouco importa. Depois, como se o sonho acabasse (e por causa disso o mundo voltasse às cores), cruza um lago, sempre com a vela resguardada pela mão. Ou melhor, anda à deriva pela água, como se a errância fosse condição da travessia e a travessia uma salvação. Daniel Blaufuks repete ou replica o penúltimo plano de Nostalghia (Andrey Tarkovsky, 1983), no qual Gorchakov tenta atravessar e atravessa um curso de água com uma vela acesa. Fá-lo sob vozes que vão dizendo (repetindo) versos do poema de Arseniy Tarkovsky, pai de Andrey, And this I dreamt, and this I dream. Acrescenta-lhe vapor e neblina, duração e corte: as direcções convergem e a travessia transforma-se em várias ou num labirinto invisível.

“Em Nostalghia, quis representar alguém num profundo estado de alienação do mundo e de si próprio, incapaz de encontrar um equilíbrio entre a realidade e a harmonia que anseia”, escreveu Andrey Tarkovsky. Ao atravessar uma superfície de água com uma candeia, num jogo de movimento para manter a luz até à margem, o gesto de Blaufuks é um aceno ao gesto de Tarkovsky — em ambos mora um desconsolo que traduz uma falta irresolúvel como condição da existência — e, como em Nostalghia, representa também a prática de um ritual, de um gesto que se repete com um desejo de consequência: há quem diga que se atravessarmos um curso de água com uma vela e chegarmos à outra margem sem que o pavio se tenha apagado, talvez consigamos salvar o mundo. Salvá-lo de quê? De novo o desconsolo, mas também a lenda do peregrino que nunca parou de caminhar na esperança de que a sua marcha pudesse mudar qualquer coisa na ordem do mundo, sem que ele soubesse qual: estamos sempre a contar a mesma história.

Escreve Vilém Flusser: ‘o gesto é um movimento do corpo que exprime uma intenção, (…) um gesto é-o porque representa alguma coisa, porque se liga a um significado’. Blaufuks caminha pela água e representa-se como Gorchakov, que em Nostalghia parece espelhar o próprio Tarkovsky. And All Will Be Repeated inscreve-se assim num fluxo de histórias que se repetem, nos círculos que se entrelaçam onda após onda: dois espelhos frente a frente reflectem o infinito.

Entre gesto e consequência — neste caso, entre chegar com a luz da vela à margem e a salvação do mundo —, há um intervalo de causalidades que jamais conseguiremos decifrar. Esse intervalo é o mistério, a rosa sem porquê, a metempsicose de todas as histórias ou os cerca de 25800 anos da precessão axial da Terra que dão origem ao ano platónico, no fim do qual Heraclito se engana e está certo de novo e a mesma água voltar à mesma ponte: you will dream everything I have seen and dream. Lá estaremos prontos a entrar na água e acender a vela, caminhar para a margem, repetir o ritual.

Eduardo Brito

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