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Manuel Caldeira — Miragem

Pensamentos anotados a partir de uma miragem

Estremecemos ao imaginar esse momento passado e longínquo no qual os nossos antepassados se terão permitido fixar, sob a forma de uma representação visual, ideias até aí apenas retidas na consciência e no universo do gesto e da oralidade. A invenção da representação simbólica marca indelevelmente o processo de evolução cultural humano e a fixação dessas ideias – visuais – por meio de gravações de carácter abstracto ou proto-figurativo, de pinturas rupestres nas paredes de grutas ou rochedos, ou mais tarde através do desenvolvimento de pictogramas, de alfabetos, de numeração, de sinais vários, de linguagem escrita, de figuras ou genericamente de imagens concebidas e produzidas nos mais variados suportes, permitiu a constituição de uma cultura alicerçada numa complexa teia de pensamentos visuais.

O desenvolvimento, transmissão e partilha dessas representações permitiram-nos – ao longo do tempo – estabelecer uma ideia possível de universalidade, facilitando a comunicação e o entendimento a partir de uma matriz assente numa visão estruturada da realidade e do mundo e dos seus princípios fundamentais. Essa ideia de universalidade partilhada foi sendo testada através da sua viabilidade temporal. A durabilidade de uma determinada representação simbólica atestaria a sua eficácia comunicacional, possibilitando o reforço da sua condição enquanto elemento incontornável na construção de sentido.

Ao longo do seu percurso, Manuel Caldeira tem vindo a desenvolver uma investigação plástica em torno da representação simbólica, da sua eficácia, permanência, viabilidade e processo constitutivo. Trata-se de um trabalho que procura tocar o plano da realidade a partir de mecanismos representacionais sincréticos, multi-dimensionais que – à semelhança da magia enquanto território de possibilidade para a criação de mundos – permitem uma fuga transcendental à contingência do mundo.

Podendo confundir-se com um fenómeno de magia, ou mesmo com uma alucinação, uma miragem resulta de um fenómeno óptico real provocado pela refracção em curva dos raios da luz do sol no plano do horizonte, recriando uma imagem composta a partir do céu ou de elementos distantes. A visualização deste fenómeno recruta no espectador um processo de interpretação que é inteiramente dependente de um processo de reconhecimento visual. Projectamos o que conhecemos. Reconhecemos no mundo que nos é exterior a nossa própria interioridade, que resulta da enorme soma de imagens que fomos – ao longo do tempo – guardando em nós.

O conjunto de obras que constituem a exposição “Miragem” parece procurar constituir, no espaço da galeria, as condições possíveis para um encontro. Elementos diversos (que lembram elementos conhecidos, nomeáveis e distinguíveis) parecem conviver num território onde impera uma certa aridez provocada talvez por um desajuste espacio-temporal ou por uma fricção no domínio simbólico (um glitch que possa ter desestabilizado subitamente o processo de comunicação). Mais do que elementos de uma mesma narrativa, parecem ser contentores de várias micro-narrativas possíveis, constituindo-se como poderosos atractores de atenção e oferecendo-se-nos como portais para uma infinidade dimensional que vai muito para além da arquitectura da galeria.

Uma ilusão dentro da realidade, produzida a partir de uma imagem queimada num horizonte de areia.

Ana Anacleto

Novembro 2024

creditos © pedro tropa

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