Joana Villaverde

Perante a guerra, os seus crimes contra a humanidade, perante os seus genocídios, o que pode um artista fazer? Para alguns, mostrar esses horrores, os corpos destruídos, torturados, esmagados, enforcados, como As Grandes Misérias da Guerra de Callot, Os Desastres da Guerra de Goya, como Guernica de Picasso ou A Guerra de Otto Dix (e como as obras de tantos fotógrafos «de guerra») que directamente, frontalmente, nos fazem reagir. Outros artistas escolhem evocar esses crimes de forma mais indirecta, menos gráfica, menos brutal, sem postura militante e sem pathos, mas com a mesma força: Mušič regressado de Dachau, Fautrier e os seus Reféns, Jaar e as suas Imagens Reais do genocídio ruandês, ou Batniji e os seus falsos anúncios imobiliários. E como é também o caso de Joana Villaverde.

A artista visitou pela primeira vez a Palestina ocupada em 2014, como que atraída por um texto de Suad Amiry, Animals’ Nightmare [Pesadelo dos Animais], que descreve como os animais, esbarrando contra o muro de separação, o muro do apartheid, também são prisioneiros na Palestina; neste relato, estes animais apelam ingenuamente ao vice-presidente americano, Al Gore, porque, dizem, nem Deus os ajuda. A artista passou dois meses na Palestina; naquele verão, Israel matou mais de 2000 pessoas em Gaza (apenas 2000, diríamos hoje em dia, comparando com números 25, 50, 100 vezes maiores. Porém, já 2000, e já, mais de metade, mulheres e crianças). O que fazer, o que dizer quando somos deste modo confrontados com esta barbárie, este desastre perturbante? Testemunhar, mas como? Tornar visível, aproximar o que está distante, tornar familiar o que é estranho.

Talvez, no fundo, tudo tenha começado com as paisagens: colinas, pedras, oliveiras, ovelhas, o sol, a aridez, o ritmo da vida nos campos. Talvez a primeira ligação tenha sido esta semelhança entre as paisagens da Palestina e as do Alentejo, uma afinidade quase visceral.

E depois houve um detonador: um velho Peugeot 404 visto em Belém e outro idêntico, abandonado nas ruas de Avis.

Hoje, o Peugeot 404 está ali, numa semi-penumbra, imobilizado, interdito de viagem como qualquer palestiniano comum, mas digno, carregado de história, e ficticiamente aculturado com uma matrícula verde marcada com o “P” da Palestina, outro instrumento de segregação.

Uma luz suave ilumina o habitáculo, de onde emerge uma música abafada, uma invocação religiosa sufista, interpretada espontaneamente, numa noite, por dois habitantes de Jenin, Nabil Al Raee, diretor artístico do célebre Freedom Theater, e o seu sobrinho Noor, e gravada pela artista. As fontes da luz e do som estão dissimuladas, quase clandestinas. O interior do carro está invadido por pequenas pás de zinco, daquelas usadas para apanhar o pó e o lixo, talvez duzentas, amontoadas, atiradas em completo desalinho.

Pensamos de imediato na simbologia do lixo, desses seres humanos considerados menos do que nada pelo ocupante, ou mesmo nesses fragmentos de corpos humanos aniquilados pelas bombas, que foi preciso recolher em sacos do lixo?

Ou nas pás usadas para escavar valas comuns e reencontrar cadáveres, para os envolver em mortalhas improvisadas?

Mas a artista não se contenta com esses símbolos imediatos: em cada pá, reproduziu uma figura dos Desastres da Guerra, de Goya, humanos, na maioria, mas também animais, pois também eles são vítimas da opressão.
Todos submetidos a contorções, torções, deformações que quase ultrapassam os limites do possível.

Nos seus desenhos preparatórios a sanguínea e nas suas 82 gravuras, Goya revelou todo o horror das perseguições napoleónicas contra os seus compatriotas: corpos descarnados, torturados, desmembrados que, infelizmente, nada perderam da sua actualidade.

Mais do que uma representação direta da realidade palestiniana, a artista, ao passar por Goya, inscreve-a subtilmente numa história mais ampla, mais universal: a das lutas dos ocupados contra os ocupantes, dos resistentes contra os opressores estrangeiros.

Tal como os irmãos Chapman, em 2003, retrabalharam uma série de gravuras de Goya para ilustrar novos Desastres, os da guerra do Iraque, Joana Villaverde, de forma menos iconoclasta, reescreve Goya para um tempo e um lugar que reinventaram o inferno. A instalação ocupa a sala; não se pode passar por ela com um olhar distraído.
Somos apanhados, como um animal selvagem, na luz dos faróis do 404, não há escapatória.

Quase tudo aqui é metal: o ferro do automóvel e o zinco das pás.
Hoje, o muro continua lá; humanos e animais chocam contra ele todos os dias, e o seu território está, dia após dia, mais ocupado, mais devastado, mais reduzido.
O campo de Jenin, perto do qual a artista gravou essa música certa noite, foi destruído, e Gaza não é hoje mais do que um campo de ruínas, inabitáveis, e contudo ainda habitadas por aqueles que nunca aceitarão ser desalojados.
Hoje, a Palestina está em cada um de nós. Não somos, como escreve Joana no seu livro, políticos, diplomatas, historiadores ou académicos: ela é artista e eu sou crítico. Qual pode ser o nosso papel perante a catástrofe?

Nunca esquecer, sempre testemunhar, acompanhar a sua resistência, a sua resiliência, sem esquecer que são deles, não nossas; que somos amigos, mas estrangeiros.

E, para uma artista, dar a ver imagens. Hoje, em Gaza, as imagens são reprimidas, a imprensa é interditada, e os nossos meios de comunicação difundem a propaganda do ocupante.

É preciso dizer, é preciso mostrar, contra tudo e contra todos.
Não calar. Perante esta catástrofe, perante esta negação, Joana Villaverde ergueu-se e disse: “Yo lo vi”,  título da 44.ª gravura de Goya.

fui a Jenin
fui à Palestina, fui ao que imaginei, fui à terra ocupada, fui onde há resistência, fui onde se ouvem tiros à noite
fui onde as pessoas são solidárias
fui onde não há espaço para condescendência
fui onde existe o trauma
fui onde as pessoas têm os olhos manchados de vermelho, porque dormir, ir dormir, não significa dormir
aqui não se dorme

Ramallah, Joana Villaverde 2014

Bio

Joana Villaverde (Lisboa, 1970) vive e trabalha em Avis.

Expõe regularmente emPortugal e no estrangeiro desde 1998. Bolseira da Fundação Calouste Gulbenkianpara a residência Location One em Nova Iorque. Artista residente na Guest Houseda Fundação Qattan em Ramallah. Publicou “Emma” (Cavalo de Ferro, 2003)e “Animals Nightmare” (Edições Documenta, 2017). Em 2016 desenvolveu o projeto“Mar”, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian e do Grupo Bensaúde.

Em 2018 abre o seu atelier Officina Mundi em Avis, onde é também directora artística da programação pública. Joana Villaverde está representada na Coleção deArte Contemporânea do Estado, Fundação EDP, Fundação Carmona e Costa,FLAD – Fundação Luso Americana para o Desenvolvimento, CESAR – ColecçãoEspírito Santo Almeida Roque; quARTel – Coleção Fernando Ribeiro; Municípiode Almada; Diocese de Beja e em diversas coleções privadas em Portugal, Espanha,Brasil, França, Bélgica, Palestina e Estados Unidos da América.

Folha de sala original em francês

Face à la guerre, à ses crimes contre l’humanité, face à ses génocides, que peut faire un artiste ? Pour certains, montrer ces horreurs, les corps détruits, torturés, écrasés, pendus, comme le Callot des Grandes Misères, comme le Goya des Désastres, comme le Picasso de Guernica ou le Dix de Der Krieg (et comme tant de photographes « de guerre »), directement, frontalement, pour nous faire réagir. D’autres artistes ont choisi d’évoquer ces crimes de manière plus indirecte, moins graphique, moins brutale, sans posture militante et sans pathos, mais avec tout autant de force : Mušič de retour de Dachau, Fautrier et ses Otages, Jaar et les Real Pictures du génocide rwandais, Batniji et ses fausses annonces immobilières. Et c’est le cas ici de Joana Villaverde.

Elle est allée pour la première fois en Palestine occupée en 2014, comme attirée là-bas par un texte de Suad Amiry, Animals’ Nightmare, contant comment les animaux, se heurtant au mur de séparation, au mur de l’apartheid, sont eux aussi prisonniers en Palestine ; dans ce récit, ces animaux font, naïvement, appel au vice-président américain Al Gore, car, disent-ils, même Dieu ne leur vient pas en aide. L’artiste a passé alors deux mois en Palestine ; cet été-là, Israël tua plus de 2000 personnes à Gaza (2000 seulement, dirait-on aujourd’hui face à des chiffres 25, 50, 100 fois plus grands. 2000 déjà, pourtant, et déjà, pour plus de la moitié, des femmes et des enfants). Que faire, que dire quand on est ainsi confrontée à cette barbarie, à ce désastre confondant ? Témoigner, mais comment ? Rendre visible, rapprocher ce qui est lointain, rendre familier ce qui est étrange.

Peut-être qu’au fond, tout a commencé avec les paysages, les collines, les pierres calcaires, les oliviers, les moutons, le soleil, la sécheresse, le rythme de la vie aux champs. Peut-être que le premier lien a été cette similitude entre les paysages de la Palestine et ceux de l’Alentejo, une parenté quasi viscérale. Et puis il y a eu un déclencheur : une antique Peugeot 404 vue à Bethlehem et une identique abandonnée dans les rues d’Avis.

Aujourd’hui, la Peugeot 404 est là, dans une semi-pénombre, immobilisée, interdite de voyage comme tout Palestinien ordinaire, mais digne, chargée d’histoire, et fictivement acculturée par une plaque d’immatriculation verte marquée du P de Palestine, autre instrument de ségrégation. Une lumière douce éclaire l’habitacle et une musique en sourd, invocation religieuse soufi interprétée à l’impromptu un soir par deux habitants de Jénine, Nabil Al Raee, directeur artistique du fameux Freedom Theater et son neveu Noor, et enregistrée par l’artiste. Les sources de la musique et de la lumière sont dissimulées, presque clandestines

Et l’habitacle est envahi de petites pelles en zinc, de celles dont on se sert pour ramasser la poussière et les ordures, deux cents peut-être, entassées là en vrac, jetées dans le plus grand désordre.  Pense-t-on d’abord à cette symbolique de l’ordure, de ces êtres humains considérés comme moins que rien par l’occupant, ou même de ces morceaux de corps humains annihilés par les bombes et qu’il fallut transporter dans des sacs pour ordures ? Pense-t-on aux pelles pour fouiller les charniers et retrouver les cadavres, pour les ensevelir dans des linceuls improvisés ?

Mais l’artiste ne saurait se contenter de ces symboles immédiats : sur chaque pelle, elle a reproduit une figure des Désastres de la Guerre de Goya, humains le plus souvent, mais aussi des animaux puisqu’eux aussi sont victimes de l’oppression. Tous sont soumis à des contorsions, à des torsions, à des déformations auxquelles on ne croirait pas ces corps capables de résister. Dans ses dessins préparatoires à la sanguine comme dans ses 82 gravures, Goya a montré toute l’horreur des persécutions napoléoniennes contre ses compatriotes : des corps décharnés, torturés, démembrés, qui, hélas, n’ont rien perdu de leur actualité. Plutôt qu’une présentation directe de la réalité palestinienne, l’artiste, en passant par le biais de Goya, l’inscrit subtilement dans une histoire plus large, plus universelle, celle des luttes des occupés contre l’occupant, des résistants contre les oppresseurs étrangers. Tout comme les frères Chapman avaient, en 2003, retravaillé un jeu d’estampes de Goya pour illustrer de nouveaux Désastres, ceux de la guerre en Irak, Joana Villaverde, d’une manière moins iconoclaste, réécrit Goya pour une époque et un lieu qui ont réinventé l’enfer.

L’installation occupe la salle, on ne peut passer à côté en la regardant distraitement, on est pris, tel un animal sauvage, dans la lumière des phares de la 404, on ne peut s’échapper. Tout ici ou presque est métal : fer de l’auto et zinc des pelles.

Aujourd’hui, le mur est toujours là, humains et animaux s’y heurtent chaque jour, et leur territoire est chaque jour plus occupé, plus dévasté, plus réduit. Le camp de Jénine, près duquel l’artiste enregistra cette musique un soir, est détruit, et Gaza n’est plus qu’un champ de ruines, inhabitables et pourtant encore habitées, par ceux qui jamais ne se laisseront déloger. Aujourd’hui, la Palestine est en chacun de nous. Nous ne sommes pas, comme le dit Joana dans son livre, politiciens, diplomates, historiens, universitaires : elle est une artiste et je suis un critique. Quel peut être notre rôle face à la catastrophe : ne jamais oublier, toujours témoigner, accompagner leur résistance, leur résilience, tout en n’oubliant pas que c’est la leur, pas la nôtre, que nous sommes amis mais étrangers. Et, pour une artiste, donner à voir des images. Aujourd’hui, à Gaza, les images sont réprimées, la presse est interdite, nos médias diffusent la propagande de l’occupant. Il faut dire et il faut montrer, envers et contre tout. Ne pas se taire.

Face à cette catastrophe, face à ce déni, Joana Villaverde s’est levée et a dit « Yo lo vi », titre de la 44ème estampe de Goya.

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /