DIANTE DO TEMPO

O facto de uma coisa ter passado não significa apenas que está longe de nós no tempo. Continua distante, é certo, mas o seu próprio distanciamento pode aproximar-se de nós – trata-se, segundo Benjamin, do fenómeno aurático por excelência -, qual alma penada, qual assombração. A arqueologia psíquica das coisas será, portanto, a teoria da sua memória críptica, da sua memória inconsciente e espectral.

Georges Didi-Huberman, in “Diante do Tempo – História da Arte e Anacronismo das Imagens”, Orfeu Negro (2017), p. 133

Escrever um poema
é como apanhar um peixe
com as mãos
Adília Lopes, “Arte Poética” in “Dobra”, Assírio & Alvim
(1985), p.12

Segundo Georges Didi-Huberman, quando observamos uma imagem — seja ela parte do nosso presente ou registo de uma memória — confrontamo-nos inevitavelmente com o tempo. Talvez por isso, o filósofo tenha escolhido um título de ressonância poética para um livro que explora a relação entre o tempo e a história da arte. No referido livro, o autor propõe uma análise crítica e reflexiva, cruzando diferentes perspectivas e questionando os fundamentos da disciplina. Defende que as imagens transportam múltiplas temporalidades e que a sua análise exige um olhar atento ao anacronismo, desafiando assim os princípios tradicionais da história da arte e abrindo novos horizontes para os estudos da cultura visual.

Diante do Tempo é um percurso dinâmico de revisitação e criação, refletindo sobre a passagem do tempo na arte, na história e na política e que propõe um diálogo entre gerações de artistas, através de obras resgatadas e novas produções, questionando a linearidade da história da arte e sugerindo uma abordagem mais fluida e simultânea dos tempos e contextos.

Assim, para além da apropriação do título, a exposição Diante do Tempo não se pretende reflexo nem caso prático do livro de Didi-Huberman. A relação criada serve apenas como pretexto para olhar para o trabalho artístico com alguma consciência dessa aura que o passado lhe possa conferir. Esse trabalho, essas obras, que ao longo do tempo, ocuparam outros lugares, físicos e simbólicos, transformando-se formalmente sem perder a sua essência.

Aqui, é sobretudo a poesia do título que nos permite expandir o pensamento. E é o sensorial, acima de tudo, que nos liga à obra de arte. A reflexão filosófica pode surgir depois, caso o espectador assim o deseje — seja ele estudioso, historiador ou um curioso com impulso para o questionamento.

Diante do Tempo é uma exposição para ser vivida, lembrada e sentida. Um espaço onde as memórias podem ser revitalizadas e novas associações podem emergir. Entre as obras, encontramos mensagens políticas, referências históricas, patrimoniais, identitárias e culturais. Podemos ser confrontados com ironia, desconforto, beleza ou nostalgia. Ou podemos apenas estar, ser e sentir, sem qualquer necessidade de interpretação reflexiva.

Cada sala tem a sua história, e o percurso é simples. Os elementos, objetos e dispositivos apresentados existem por si mesmos, para serem observados e experienciados sem exigência de entendimento ou resposta. Os textos que acompanham a exposição podem servir como descodificadores ou complementos, mas são, acima de tudo, provocações ao pensamento — opcionais. O espectador tem a liberdade de ser um participante ativo ou de simplesmente permanecer à margem, dentro ou fora da exposição.

Diante do Tempo é, por tudo isto, e antes de mais, uma experiência sensorial, onde se privilegiam o espaço e o tempo, e se repudia o excesso e o ruído. Sem uma narrativa linear, cada sala funciona como um retrato autónomo, permitindo que o espectador construa a sua própria história a partir do que vê e sente. Talvez, no fim, encontre um sentido.

Vera Appleton, 2025

Nota 1.

Diante do Tempo é uma exposição que contém em si várias exposições independentes. Cada artista e cada autor que sobre a sua obra escreve, vive isolado do outro. Nesta segunda versão da exposição no CCC CB, apresenta-se, tal como na primeira no MACE, uma grande variedade de media: som e vídeo (Osso Exótico, texto de Luiza Teixeira de Freitas), fotografia (Pedro Falcão, texto de Nuno Faria), instalação (Sara Mealha, texto de Filipa Correia de Sousa), cinema (Albano da Silva Pereira, texto de Sérgio Mah), escultura (Joana Villaverde, Belén Uriel e Sara & André, textos de Marc Lenot, Carolina Trigueiros e Luís Silva e João Mourão, respectivamente).

Nota 2.

Com um programa descentralizado entre o Museu de Arte Contemporânea de Elvas (Exposição, 2025), o Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco (Exposição, 2025) a Appleton Associação Cultural (Exposições, 2026), o Centro de Artes Visuais em Coimbra (Exposição, 2026) e a Córtex Frontal em Arraiolos (Residências, 2025), as exposições, residências e diferentes acções, expandem-se para territórios diversos, promovendo a reflexão crítica e a mediação de conhecimento através de temas como o património, a efemeridade, a performance e o presente, criando uma narrativa que entrelaça tempo, espaço, arte e pensamento. Através de um vasto programa de mediação, Diante do Tempo posiciona-se então como um lugar de partilha, onde o objecto artístico se revela como uma leitura activa da história. O projeto é desenvolvido no âmbito da RPAC – Rede Portuguesa de Arte Contemporânea e a data de inauguração em Elvas, coincidiu com a celebração dos dezoito anos da Appleton, que inaugurou o seu espaço em Lisboa no dia 10 de abril de 2007 com uma exposição de livros do artista norte-americano Lawrence Weiner.

Agradecimentos

 

Aos artistas, curadores e autores dos textos:
Albano da Silva Pereira, Ana Hatherly, Belén Uriel, Joana Villaverde, Michael Biberstein and Appleton & Domingos, Osso Exótico (André Maranha, David Maranha, Francisco Tropa, Manuel Mota, e Patrícia Machás), Pedro Diniz Reis, Pedro Falcão, Sara Graça, Sara Mealha, Sara & André, Susana Mendes Silva e Jari Marjamäki, Ana Anacleto e Bruno Marchand, Carolina Trigueiros, Delfim Sardo, Filipa Correia de Sousa, Joana Valsassina, Luís Silva e João Mourão, Luiza Teixeira de Freitas, Marc Lenot, Nuno Faria, Sérgio Mah, Vítor Serrão.

À equipa nuclear da Appleton, Teresa Anacleto, Inês Teixeira e Rita Baleia.

A todas as pessoas sem as quais esta exposição, nos seus vários momentos, teria sido significativamente mais difícil — ou até mesmo impossível:

Sónia Abreu, Bruno Esteves, Teresa Antunes, Tiago Salvado, Paulo Martins, Luís Albano, Ricardo Pimentel, Ana Cristina Cachola, António Cachola, Patrícia Machado, Florinda Burrinhas, Ana Nobre de Gusmão, João G. Appleton, Isabel Domingos, Isabel Zarazúa, Chloé Daquet, Nuno Centeno, Norlinda, José e Ricardo Lima, Francisco Soares, Paulo Morais, Pedro Leitão, Caio Guedes e Oliveira, Ícaro dos Santos, Pedro Palma, Tiago Mourão, Pedro Paiva, Melanie Alves, Ana Curto, Paulo Fernandes, Bruno Teixeira, Walter Dias, Nuno Candeias, Paulo Moreiras, Paulo Beicinha, Adriano Carlos, Ana Santa, Patrícia Rondão, António Silva, João Chaves, Laura Gonçalo, Bruno José Silva, André Tasso, António Cunha, Patrick Couto, Mário Valente, Armando Cabral e Maria João Santos, Bruno Marchand, Jorge Simões, João Appleton, Jordi García Pons, Misterpiro, Pedro Falcão, Pedro Tropa e Teresa Santos, Elsa Garcia e António Néu, Filipa Oliveira, Tiago Beirão da Veiga, Galeria Miguel Nabinho, Galeria Madragoa, Galeria Nuno Centeno, MNAC, e Culturgest.

A todos os que apoiaram a Appleton ao longo dos anos, em especial aos nossos actuais Mecenas: HCI, Colecção Maria e Armando Cabral, MyStory Hotels, JD Collection e A2P

Em memória de Margarida Appleton, Leonor d’Orey e Leonor Moutinho

 

HCI / Colecção Maria e Armando Cabral / / /