Sara Mealha
Before Time, MACE
Nos dias de hoje, quando falamos do lugar da imaginação, de que lugar estamos a falar, em concreto? De um lugar que acontece exclusivamente ao nível do espírito, da mente? Um lugar de fantasia e ilusão, de refúgio do real? Um lugar original, livre, sem limites ou fronteiras definidas que motivam o gesto do criador ou a alienação do sonhador? De que falamos, ao certo, quando convocamos esse lugar nostálgico por condição, onde a imaginação reina e vence a concepção normativa do real? Poderá esse lugar assemelhar-se mais, ou aproximar-se deveras, do nosso mundo primário, dessoutros lugares que não conheciam tempo no decorrer da concentração própria da brincadeira, dos jogos e das aventuras, criados e explorados nessa desarticulação, ou melhor, nessa vitória dos desafios criados sobre a cadência do tempo que a disciplina da realidade impera e regula?
Uma vez confrontados com a impiedade do real que se impõe, conduz e corporaliza a matéria que compõe os nossos dias, é certo que este lugar de magia, espontaneidade e fascínio, é transitoriamente abandonado, muitas vezes desprezado, para dar lugar à instituição das regras que ditam o contexto e o lugar que ocupamos no mundo. Nos dias que correm, os momentos de ilusão e deslumbramento tornaram-se, inevitavelmente, momentâneos, raros, tremendamente escassos. O mundo em que vivemos pede-nos uma atenção e dedicação extraordinárias sobre a contextualização de factos verificáveis, de averiguações necessárias sobre informações dúbias, de justificações de dados adquiridos, de reformulações de lugares-comuns, objectificando uma determinada verdade sobre a qual regemos o nosso tempo e para a qual dedicamos as oportunidades que temos.
Em boa verdade, estamos já, aparentemente, muito longe do deslumbramento, sobre o qual escreveu Walter Benjamin, sentido por aqueles que escutavam uma história de forma despreocupada, sem sentir a necessidade de verificar a sua plausibilidade (ou adequação, acrescente-se). Estamos já muito longe de observar as obras de arte, em toda a amplitude formal que as determina, e convocar um debate crítico a nível colectivo sem que nela se procure a possibilidade de justificações éticas, sem que se exijam semelhanças e identidades, procurando reformular de maneira inusitada a existência da mesma. O lugar da imaginação é hoje, de modo inevitável, preenchido pela imposição de uma realidade conformada, mastigada, esgotada. Talvez por isso, quando propomos pensar sobre este lugar, se faça sentir uma significativa nostalgia e uma sensação de um encanto distante, atribuído agora apenas às crianças, aos poetas, aos sonhadores. Mas talvez por isso, justamente, seja tão importante olharmos para as obras de arte que nos demonstram a possibilidade inesperada da abertura desse lugar da ilusão, da fantasia, do humor e da brincadeira, da aventura e da descoberta.
Possa a reformulação desse lugar acontecer num longo corredor escuro, no qual nos é permitido vislumbrar pontos de luz naquilo que são janelas-espelho para outros lugares ao nível da imaginação. São reflexos de luz em espelhos. Sobre eles, a tinta aplicada cuidadosamente desenha formas geométricas que reproduzem entradas de luz sob diferentes formas de refracção e rebatimento. O corredor é então pontuado por feixes de luz em janelas que ali se afiguram. São diferentes imagens de uma vivência comum aqui representadas: o reflexo da janela de um quarto ao início da manhã, a silhueta comprida e recortada de um caixilho que percorre o tapete de uma sala durante um dia ameno, a luz do sol nos arcos de pedra que mantêm a frescura de um claustro a meio do dia, a claridade que entra através de um vidro estilhaçado de umas águas-furtadas, a luminosidade de um início de tarde que ainda encadeia o olhar curioso de quem espreita por entre as tábuas da janela de uma casa fechada. O nosso mundo está aqui representado, junto com as nossas experiências volvidas, tão naturalmente manifesto através destas representações que provocam uma sensação de inesperada surpresa dada a familiaridade com aquilo que a nossa imaginação chama à presença. Sem uma procura exaustiva de conceitos ou explicações, este é o mundo caleidoscópico e metamórfico a que queremos tão profundamente voltar, que aqui se abre e nos chama. Deparamo-nos, então, com a possibilidade de reencontro desse nosso tão pequeno e tão íntimo mundo imaginário experienciado que se concilia com o real universal, sem o esquecer ou anular, mas antes, saudando-o. E quando a arte se aproxima da vida, talvez estejamos mais perto da tão desejada conquista de uma verdade que nos una, essa tal que tão discreta, mas perseverantemente procuramos alcançar.
Filipa Correia de Sousa 2025
Bio
SARA MEALHA nasceu em Lisboa em 1995. Em 2017, concluiu o curso de Pintura na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa.
Trabalha principalmente o desenho e a pintura, os quais informam sempre o seu trabalho expositivo – o qual tem sido marcado principalmente por soluções e projectos com uma forte dimensão site- specific.
Desde de 2017 que expõe regularmente em exposições colectivas e individuais. Destacam-se “A Dispensa” (Pavilhão 31, 2017), “Cola-Cuspo” (Espaço AZ, 2018), “Cabra Cega” (Galeria Balcony, 2019), “A Longa Sombra” (Maus Hábitos, 2020), “Entre Margens” (Galeria do Parque, 2024). Fez a sua primeira exposição individual, “Primeiro Socorro”, na Travessa da Ermida em 2018. Destacam-se também as exposições individuais, “Às Nove a Caminho” (Galeria Balcony, 2019), “Ou Não, Sim” (Casa da Cerca, 2021) “Ne Pas Plier” (Zaratan Arte Contemporânea, 2023), “Meia Bravura” (Appleton BOX, 2023) e “Perdícia” (Associação Alfaia, 2024). Em 2024 participou na ARCO Madrid com um projecto individual a convite das Galerias Municipais de Lisboa.
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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