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Robert Wiley —Build, Branch, Bind

Robert Wiley: Uma Rede Que Mexe.

Engodo
Nem tudo o que vem à rede é peixe. Nem tudo o que parece é.

Robert ri quando comento a arrumação da parede do gabinete: “dizes isso porque não vês o ruído de tudo o que escondo na parede para onde olho, por detrás do ecrã.” Consigo segurar o impulso de girar para ver essa parede, cujo lugar nem está atrás de mim. A risada corre nos dois lados da superfície de cristais líquidos.

E deixo-me demorar nessa piada, mais do que o habitual num punchline. O meu sorriso começa a pender, inundado por uma vaga meditativa. Que barafundas e amontoados terá Robert montado ali? A que instante a ordenação da parede descambou em desordem? Se consigo imaginar modos que traçam o ponto em que nada passa a ser algo?

Robert nota rapidamente quando uma linha de pensamento encalha e como a desembaraçar com prontidão. Poderia ligar essa aptidão à mentalidade extrovertida e pragmatista estado-unidense em que cresceu, ou aos truques necessários ao ofício de educador, mas escolho vê-la como efeito de crescer a pescar. Como o tempo de pesca lhe formou a mão e a metafísica a partir de qual monta finos fios
grelhas, redes, exoesqueletos de cristal

corpos de luz que são líquidos
como não sei
o vidro derretido
o contorno que arma
um arame
para algo que ali se prendeu
e escapa
sem dar a ver.

            Com a voz meiga de quem vem despertar um sono profundo, Robert traz o meu foco linear à tona quando acrescenta que “tudo o que eu faço é um objeto que soa” —Everything I do is sound. Não consigo decifrar se Robert me tenta dizer que faz coisas que sonam, que soam, que suam

ondulações
brevidades
transitoriedade
transmissões,
ou, se o sounding expressa um outro fazer
sólido
fiável
razoável
bem-pensado
confiante
lógico.

            As palavras são engodos de armação fina. E, até afluir, a direção dos significados cursa a seu bel-prazer.

Robert faz redes para o atravessamento de significados que o nominável encurtaria. São formas —tanto modo de, como a forma, a matéria— de abraçamento e de contorno —outlining, uma linha exterior. E, quiçá, fora de linha?— para algo que flui sem forma ou dimensão temporal. Formas com que a sua poética de abertura se lança. Linhas de saber que engancham com a espera. Linhas que tensionam sem rigidez. Armações dispostas ao que aparece.

Preso pela boca.

            A espera do pescador não vigia a sorte, nem a eficácia do isco que montou, mas a fome que desagrupa um peixe do aquático incomensurável. Fome que leva o peixe a mostrar-se e a deixar-se tentar pelas delícias da captura.

Robert descreve as suas criações como artefactos de espera em vez de mira. Criações para um ‘olhar por algo/procurar’ em vez de um ‘olhar para’ —a looking for rather than a looking at. São geringonças escultóricas, desenhos espacializados, objetos com semblante de esquelético e que parecem segurar algo informe, fino e passageiro. Criações no encalço de uma fome que passa sem ter nome feito. Contornos delicados para algo delicado, e que transborda os nós rígidos ou determinantes com que o intelectivo tantas vezes quer ancorar os sentidos que a arte toma. 

Robert dirá que a relação da palavra com a criação —especialmente visível no domínio da investigação sobre/em/através/a partir/com artes— segue agrilhoada ao terror de perder pé. Que não arrisca soltar-se da leitura de um ‘fazer sentido’ imbuído, afogado, no tangível. Palavras apressadas; que não petisca leituras arriscadas. Demorar-se na expressão do que parecendo ser não é, e parecendo estar não está.

A irritação de Robert com a linha do intelectivo concreto devolve-me o sorriso. Noto o rubor que lhe encharca o rosto, a voz que esganiça, o sobrolho que plissa. O meu sorriso dilata, pressentindo o aparecimento de uma parte protetora do seu carácter. O traço gentil e pausado com que até então me falara dá lugar a uma feição avivada, opositora, assertiva e um tanto quanto rabugenta. Bem lhe conheço esse feitio zeloso pelo inominável, pelo numinoso, pelo infrafino, pelo cariz não-verbal na criação artística, que irrompe nas conversas mantidas em torno do seu (delicioso) projeto de doutoramento.

A margem esconde-se sob a névoa. O que se ouve através do véu: um piar de sereia ou um assobio de pescador?

Robert não parece notar o efeito sedutor com que as suas palavras contornam o sentir, encantam e sensualizam a minha atenção. A mestria com que desembaraça palavras pouco adversas ao sensorial. Linhas de contorno para as presenças transitórias, os pedaços sem identidade, os encontros insólitos entre materiais, a subtil união de retalhos de ar e luz. Arremesso de palavras a cortar o ar da interpretação evidente, o comodismo da adequação às gramáticas familiares.  

A Lining in time. A linha mente.

A inspiração criativa surge sem hora certa. Daí que a apanha dependa da espera e da preparação. De disponibilidade para notar —sensing— a sua passagem e de saber como sacá-la do caudal do subtil para esta realidade ordinária. E de sorte. Que a inspiração não venha espreitar se o pescador fecha a pestana madrugadora. Que não se faça notar quando este se entretém a recolher lixo alheio deixado na paisagem. Que a linha seja capaz de segurar e trazer a sua pujança à superfície. 

Uma linha que vibra não mente. Mas a mão de Robert não se deixa enganar pelo simples retesar da cana. Aguarda —ponders— que a boia que pisca afunde para dar mão ao carreto.

A mão de Robert sabe tudo isto. De manuseio em nada hesitante, minucioso, sofisticado. Uma mão que espelha o carácter de quem a segura: uma figura de presença vigorosa, resoluta, sem embaraço; traços que não parecem alinhar-se com a tremenda e contagiosa gentileza e emotividade que não esconde. Quero ouvir mais dessas estórias sobre criação artística em que os machos também se alinham pela doçura.

A mão deste criador não se lança à pesca de ideias feitas. Diz-me: There is no identity, there is the taking of an idea. Que não existem identidades, apenas algo cuja pega dá a sentir o deslize da sua incomensurabilidade. Como o peixe fora d’água, aquilo que segurado, asfixia o seu sentido vivo. Sigo ao desembaraço da sua mão. A facilidade com que enlaça redes e as repara quando, inevitavelmente, se rompem. O preparo meticuloso de novas redes e de nós ainda mais discretos. A mão forte que não pausa, nem fala de maleitas trazidas pelas repetições inerentes a quaisquer ofícios.

Quantos misteres se atam por aquelas mãos!

Robert rezinga-se sempre que trago a sua formação em escultura de vidro à tona para o definir. Diria que é um problema da minha fome que não sabe esperar e se deixar tentar pela estética que vejo nas suas criações escultóricas. Desenhos de fusões, uniões, justaposições e, sobretudo, essa irresistível oposição material e intelectual entre a presúria e a soltura na qual a minha mentalidade fez habitat.

A pesca de Robert termina. Recolhem-se os equipamentos, os efluentes da pescaria. E, no entanto, a mão não consegue retrair-se com a cana. Nunca descansa. A consciência da mão não dorme; não se guarda para uma próxima: vai na corrente do que vem a seguir.

A mão será talvez a parte menos moralista, julgadora, do eu. Onde a consciência sabe transitar sem dificuldade entre usos e costumes, ora dando soltura como apertadelas, ora causando arrastos ou solturas, pressionando tanto quanto acaricia. A mão que sabe como tecer uma rede, montar andarilhos, desenvencilhar nós, lavar roupa de olhos fechados, passar o dedo na superfície interior do ninho para saborear o frescor da sua limpeza. A mão vigorosa que sabe abater, que apalpa o invólucro murcho de amantes e amásias, que arruma o sono de uma cria no consolo da afeição, que dança a par da boca falante e relembra a inseparabilidade na qual existimos. A mão que sabe ser a menos sentenciadora parte do eu.

A mostra das suas engenhocas criativas não me parece tornar o espaço da exposição mais organizado. Antes, elas ativam uma dilatação da perceção de espacialidade enquanto materialidade. Algo insondável se passa. Ou que ao passar dissolve quaisquer limites. Algo se mostra parecendo não estar. Não estará, ou sou eu que não a pesco?

André Alves
2026

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