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João Henriques Pires —Do It Shiny

“Certain frequencies shatter glass”[1]

“Do It shiny” anuncia desde o título uma tensão irónica entre aparência e construção, que atravessa subtilmente a primeira exposição individual de João Henriques Pires, na Appleton [BOX] em Lisboa.

Nesta exposição as obras do artista habitam um território de deslocação e reinvenção onde pequenos movimentos são capazes de alterar a forma como vemos objectos, imagens ou materiais que fazem parte do nosso quotidiano.

João Henriques Pires não o faz com timidez, e aborda a matéria com uma presença afirmativa. As suas obras revelam processos de transformação, transferência e adaptação que expõem a capacidade dos materiais para adquirirem novos significados sem que a sua história seja totalmente apagada.

Em Do it shiny, peça que dá o título à exposição, o artista apresenta um “desenho digital” manipulado, em que nos mostra uma fotografia de vestígios de vidro estilhaçados com reflexos que podem ser ou não artificiais, mas assume-os como uma escultura composta por madeira, vidro, fita led, e impressão em papel. E se não há dúvida que o campo artístico de João Henriques Pires é efectivamente a escultura, nesta exposição torna-se evidente que expande a sua investigação para o som, a imagem em movimento e a escrita.

Em cada um destes campos regressam questões que atravessam toda a sua prática: a apropriação, a transformação, o erro, a circulação de vestígios e a possibilidade de atribuir novos significados a materiais, objetos ou linguagens previamente existentes.

Esta sensibilidade encontra um eco particular no percurso do artista na ESAD das Caldas da Rainha, território híbrido, onde a proximidade entre contexto urbano, rural e industrial favorece formas de observação e produção que escapam às lógicas mais centralizadas da cultura. Se muitos destes materiais remetem para formas vernaculares de adaptação e sobrevivência, a sua reorganização aproxima-os simultaneamente de objetos especulativos e dispositivos tecnológicos, criando uma tensão constante entre memória e projeção.

Talvez por isso, uma das características mais marcantes do trabalho de João Henriques Pires seja a forma como incorpora a falha, a imperfeição e o acidente: vidros partidos, estruturas incompletas, objetos reaproveitados ou marcas de uso assumem-se como elementos fundamentais da linguagem das obras, integrando a sua construção e o seu significado.

Esta valorização do erro aproxima a prática do artista de uma longa tradição de culturas DIY e de diferentes formas de produção contracultural, onde a escassez de recursos se transforma num motor de invenção. A capacidade de criar novas possibilidades a partir de condições limitadas sobrepõe-se à perfeição técnica. Neste sentido, a contracultura não surge como tema iconográfico da exposição. Manifesta-se antes como uma atitude perante a materialidade, os objetos e os processos de produção.

Dentro desta lógica, a matéria surge como algo que está disponível, passível de ser resgatado e com o qual se estabelece uma negociação: em toda a exposição vidro e betão, materiais centrais na modernidade urbana, sofrem uma espécie de inversão de papéis, o vidro é frágil mas agressivo, o betão é pesado mas funciona como suporte expositivo. Já a madeira, material essencialmente natural, funciona quase como um elemento mediador: introduz uma dimensão sensorial que o vidro e o betão não possuem; tem cheiro, textura, calor, marcas de uso – é uma matéria que envelhece de forma visível e apesar de transformada pela ação humana, conserva a memória do tempo.

É precisamente a partir destas limitações aparentes que muitas das obras presentes em “Do It shiny” parecem simultaneamente rudimentares e tecnológicas. São construídas a partir de materiais encontrados, soluções artesanais e processos manuais, mas evocam dispositivos tecnológicos cuja função permanece incerta. Não estamos perante uma celebração da inovação tecnológica nem perante uma nostalgia do artesanal. As obras habitam um território intermédio onde funcionalidade e especulação coexistem. É nesta zona ambígua que se torna visível a capacidade dos objetos para ultrapassarem a função para a qual foram originalmente concebidos.

A instalação Wall ocupa assim um lugar particular na exposição porque torna explícitas questões que atravessam todo o conjunto de obras do artista. Através da projeção sobre vidro resgatado de uma antiga montra, pintado e grafitado, a peça oscila entre escultura e imagem em movimento, entre presença física e representação digital, e alterna momentos em que o objeto se afirma como estrutura escultórica e outros em que se transforma numa superfície de projeção. Esta oscilação prolonga uma questão já presente nas restantes peças: a instabilidade das categorias e das funções. Também o texto e o som participam desta lógica. O texto escrito pelo artista e lido por outra voz, num inglês deliberadamente imperfeito, introduz na linguagem uma estratégia semelhante àquela que encontramos nos materiais. Tal como o vidro conserva as suas fraturas, também a linguagem preserva os seus desvios. O erro deixa de ser uma insuficiência para se tornar uma forma de produção de sentido.

Ao circular por “Do It shiny”, somos envolvidos pelo cuidado com a luminosidade, pelo ambiente sonoro e pelas múltiplas referências que o artista procura incorporar na perceção do espectador. Sob a aparente contenção formal das obras existe também uma dimensão de inquietação e urgência que atravessa a exposição: “Johny, não há paz na submissão” (em Screen) será a referência autobiográfica mais explícita a essa urgência. E quando nos deparamos com 1 of 100, timidamente instalada na sala, essa urgência, juntamente com a ideia de permanência, é reafirmada formalmente: cimento e vidro estabelecem uma relação de dependência entre vulnerabilidade e resistência já que os pequenos fragmentos cortantes encontram estabilidade nas pequenas bases de areia entretanto solidificada.

Com “Do It shiny” o artista João Henriques Pires consegue falar-nos do dia seguinte, dos restos, das marcas, das estruturas abandonadas, dos resíduos da acção, uma arqueologia de acontecimentos ausentes. Vidros tornam-se esculturas. Montras transformam-se em superfícies de projeção. Objetos funcionais convertem-se em artefactos especulativos. Fragmentos adquirem novas funções. Linguagens imperfeitas tornam-se veículos de comunicação.

As obras de João Henriques Pires parecem ser construídas a partir de formas de resistência. Entre o rural e o urbano, entre o artesanal e o tecnológico, entre a escassez e a imaginação, o artista propõe uma reflexão sobre a capacidade da matéria para sobreviver, adaptar-se e adquirir novos significados. As suas esculturas tornam visível memória sem apagar a história dos materiais, os acidentes e as imperfeições que estes transportam, transformando o vestígio numa forma de presença.

Vera Appleton, junho 2026

[1] Underground Resistance. Liner notes. Revolution For Change, Network Records / Underground Resistance, 1992.

creditos © pedro tropa

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