SQUARE
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Ana Manso / André Romão — Espiral
É a terceira vez que Ana Manso e André Romão realizam uma exposição juntos, embora o trabalho de ambos seja substancialmente diferente. Ana Manso faz pinturas abstratas, por vezes com brevíssimas sugestões figurativas; André Romão, esculturas e assemblagens que assentam na ideia de corpo e mutação. Porém, no distanciamento destas práticas, surgem aproximações subtis. Pontos de contacto sensitivos que partilham uma perspetiva vitalista da arte, na qual pintura e escultura funcionam como agenciadores de movimento, fluxos e vibração.
Nesta nova exposição, os trabalhos de Ana e André aparecem agregados pelo mecanismo da espiral. Tal como esta figura geométrica, que expande e contrai perpetuamente, as pinturas e as esculturas apresentadas concentram forças opostas e instituem permutas entre diferenças. Afirmam a transformação constante, na exata medida que afirmam a coexistência de estados heterogéneos que se afetam reciprocamente. Portanto, nada é inerte, ainda que nenhuma das obras contemple movimento físico.
Em Ana Manso o plano pictórico é mais do que uma superfície. Tem o valor de uma pele pulsante e complexa. Essa pele pode ter uma qualidade mais porosa ou mais macia. Ao fixá-la, o olhar encontra uma ampla variação de cores. Sem ponto focal, é estimulado por vermelhos-rosa, amarelos-esverdeados, verdes-relva, azuis- escuros e celestes, laranjas ácidos ou cinzas rochosos, dados por pinceladas flutuantes, esponjados, tingimentos tie-dye, spray ou stencils. O seu ritmo entra numa relação de velocidades e abrandamentos, opacidades e transparências, passagens e fronteiras de cores, arrastamentos, zonas aquosas e densas, luminosas e escuras. Aí descobre motivos quase orgânicos, a par das múltiplas camadas e subcamadas que formam a pele das pinturas. O olhar avança sobre os planos e recua em simultâneo, até se envolver nas suas atmosferas fibrosas, minerais e florais. Parece tocá-las, mas à semelhança das imagens mentais, a sensação de concretude é contrariada pela da imaterialidade, produzindo uma visão tão háptica e corpórea, quanto virtual.
Num sentido diferente, em todo o caso análogo, as figuras criadas por André Romão, são animadas por um fundo abstrato que está barrado à visão. No chão da galeria, dois corpos dormem hibernados sobre plataformas, cobertos por sedas, algodões e lãs. Se as plataformas pintadas a vermelho estridente colocam as figuras a flutuar no espaço, os têxteis, com padronagens abstratas de efeitos visuais hipnóticos, provenientes do Uzbequistão, Índia ou Japão, promovem o ambiente propício a uma longa viagem que o sono profundo vem realizar. Perante a hostilidade do mundo atual, o espaço sideral onírico ficcionado não se revela, mas parece favorecer a composição de alteridades. Com rostos meio-humanos, meio-corujas, meio-alienígenas, estes corpos híbridos sonham, um deles protegido por uma raposa aos pés. Não conhecem fronteiras e entraram num processo de mutação livre, sem agressão. Uma terceira figura terá perdido o corpo e gravita como um avatar-fantasmático, movida pela força iridescente do rosto.
Os sinos de bronze suspensos no teto, podendo acordá-los, sugerem as ondas de vibração que estes corpos e pinturas propagam no espaço. Nem a parede da galeria, transformada pelos artistas num mural, parece escapar ao efeito. Também ela reage e move, entre ziguezagues, linhas retas, curvas e ondulatórias, intensificando e dando capa ao vitalismo da exposição.
Sofia Nunes
creditos © pedro tropa
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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