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Ana Pérez-Quiroga — ¿De qué casa eres? Los niños de Rusia. Episodios de un cotidiano #6
Ao longo de décadas de uma prática profundamente multidisciplinar, Ana Pérez-Quiroga tem vindo a desenvolver um corpo de trabalho atento às relações entre objecto, memória, quotidiano e identidade. Entre instalação, fotografia, performance, vídeo, texto (e, mais recentemente, a sua incursão no cinema), a artista constrói um léxico onde os elementos nunca se encontram isolados. Estes contaminam-se, prolongam-se e regressam em cadências próprias de uma linhagem ancorada na investigação. Há uma insistência na ideia de arquivo vivo, na possibilidade de os objectos acumularem camadas de tempo, afectos e deslocações. A memória surge como matéria plástica, mutável, por vezes contraditória. Um campo dinâmico onde aquilo que é lembrado convive com o que foi silenciado, omitido ou transformado pela passagem do tempo.
É precisamente nesse território que se inscreve “¿De qué casa eres?”, um projecto que parte da história da mãe da artista, Ângela Petra, uma das várias crianças espanholas enviadas para a União Soviética durante a Guerra Civil Espanhola. Com apenas quatro anos, deixa o País Basco e inicia um percurso de exílio que atravessa internatos russos, deslocações sucessivas durante a Segunda Guerra Mundial e cidades hoje pertencentes à Ucrânia, Rússia, Cazaquistão ou Sibéria, até regressar a Espanha já adulta. Mais tarde, fixa-se em Portugal. A pergunta enunciada era, entre estas crianças, uma forma de reconhecimento mútuo, de identificação dentro de uma condição de permanente deslocação. Uma dessas formulações que, pelo seu peso, atravessam gerações, permanecem suspensas, mudam de forma e até encontram diferentes corpos onde continuar a ecoar.
Na obra de Ana Pérez-Quiroga, “¿De qué casa eres?” ultrapassa rapidamente a sua condição identitária para se expandir num território afectivo, político, histórico e íntimo. A casa é simultaneamente origem e deslocação, abrigo e perda, pertença e desenraizamento. É um lugar físico, mas também uma construção emocional e uma geografia em permanente mutação. É o corpo da artista, o gesto que progressivamente se aproxima e apropria desta história. O corpo de uma filha que se aproxima da mãe. O corpo umbilical é também um corpo político. A transmissão afectiva nunca está dissociada das estruturas históricas que a moldam.
Nesta exposição desenvolvida para o espaço da Appleton, “¿De qué casa eres? Los niños de Rusia. Episodios de un cotidiano #6”, destaca-se “Gernika-Lumo” (2022), peça originalmente desenvolvida para o filme [“¿De qué casa eres?”] e apresentada agora pela primeira vez em contexto expositivo. Recuperando a escala exacta de “Guernica”, de Picasso, a obra transforma o peso simbólico deste ícone incontornável da história da arte num território manual, táctil e profundamente corporal. Guernica é o ícone; Gernika-Lumo demarca um lugar, as casas, as famílias. Concebida em burel, material associado à samarra tradicional portuguesa e a uma memória vernacular ligada à infância da artista, a peça activa a sua dimensão mais sensorial e afectiva: o toque tem memória. A mão tece, aproxima-se dos símbolos e da violência do inimaginável. Aqui, o cinema informa a instalação e devolve espessura física à imagem filmada. Neste gesto de apropriação, a tapeçaria, associada ao espaço doméstico, transforma-se num dispositivo de elaboração da memória colectiva e de reactivação do próprio estatuto do ícone. Os vários painéis que compõem a obra ampliam fragmentos da pintura original, o horror e a violência implícitos.
Poderíamos afirmar que interessa à artista tratar como o trauma se infiltra nos quotidianos, nas constelações familiares, nos elementos preservados, nas canções, nos silêncios e nas hesitações da própria memória. A pós-memória como herança transmitida entre gerações, uma continuidade invisível que persiste para além da experiência directa. Existe na prática de Ana Pérez-Quiroga uma insistência vital na possibilidade de afecto, encontro e transmissão. Entre o trauma e o cuidado, entre o arquivo e o corpo, entre a memória colectiva e a intimidade familiar, a artista constrói uma obra onde a fragilidade nunca se separa da resistência.
Neste ciclo “Get Back”, quinze anos após “O mundo nas suas verdadeiras cores” que a artista apresentou na Appleton em 2011, é inevitável reconhecer continuidades e deslocamentos. Se nessa exposição finda de 2011 se evidenciava um interesse atento pelas relações entre objecto, circulação, participação e sistemas de valor, o têxtil surgia igualmente enquanto elemento central, assim como a activação do espectador dentro do próprio dispositivo da obra. Era notável uma preocupação em aproximar arte e vida quotidiana, ao colocar a tónica nos mecanismos de produção, circulação e legitimação.
Em “¿De qué casa eres? Los niños de Rusia. Episodios de un cotidiano #6” permanece essa atenção à materialidade enquanto portadora de memória, à ideia de autoria e a sua apropriação reconstruída. Porém, se em 2011 a participação do público assumia uma dimensão mais directa na construção da obra, aqui o visitante é convocado sobretudo enquanto agente implicado. O olhar torna-se cúmplice ou um acto de responsabilidade. Um exercício activo de vigilância, compreensão e resistência.
O gesto é desarmante precisamente porque é directo. Porque insiste em aproximar-se daquilo que nunca pode ser totalmente concebido. Compreende que existem feridas cuja cura não passa pelo esquecimento, mas pela capacidade contínua de lembrar, revisitar e transmitir.
Carolina Trigueiros
creditos © pedro tropa
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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