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Catarina Real — Self Help Self Hope
No conto Altruizine de Stanislaw Lem, um robot de poderes quase omnipotentes propõe-se a concretizar um projecto ambicioso: tornar possível a felicidade universal de todos os seres vivos. O método era claro na sua simplicidade: através de uma substância solúvel em água chamada Altruizine os habitantes do planeta Terrania seriam as cobaias expostas aos efeitos da derradeira empatia. Instantaneamente tornar-se-iam capazes de sentir fisicamente a felicidade ou a dor de qualquer ser vivo que estivesse até uma milha de distância. Deste modo, a dor individual passaria a ser partilhada coletivamente e, por defeito, os habitantes deste planeta seriam obrigados a trabalhar em conjunto para que a felicidade fosse global. O lema do projecto poderia ser o velho ditado tantas vezes repetido pelos livros de autoajuda: trata os outros como gostarias de ser tratado. O plano falha espetacularmente. De imediato se percebe que é a aversão à dor, e não a felicidade, que funciona como o estímulo mais urgente e mobilizador. O caos instala-se. Um grupo de fazendeiros torna-se incapaz de se mexer quando sofre as dores de parto de uma vaca que se encontrava nas redondezas, uma viúva de luto é expulsa da cidade quando ninguém se mostra disponível para partilhar a sua dor e uma multidão forma-se junto ao quarto de hotel de um casal em lua de mel para apropriar-se do seu prazer. Apesar dos sentimentos alheios se terem tornado tangíveis, nem por isso eles deixaram de ser recebidos de um modo egoísta, a felicidade é uma apropriação e a dor é um factor ainda maior de alienação. Inevitavelmente os planos do robot, que era imune aos efeitos do Altruizine, são descobertos e os habitantes prendem-no, torturam-no e disparam-no para outro planeta num canhão.
Levanta-se a questão: será que a felicidade é apenas a capacidade de ignorar aquilo que nos causa dor? Se calhar a verdadeira empatia não é a capacidade de partilhar a dor dos outros, mas a vontade autónoma e desinteressada em fazê-lo.
Porque quando pensamos em empatia, altruísmo ou equilíbrio emocional pensamos em qualidades que são fundamentais para uma existência ajustada tanto individualmente como em comunidade. Sentimentos que, mesmo sendo familiares, são também profundamente abstractos. Tentar imaginar uma existência fora da nossa é um paradoxo que choca com a nossa própria individualidade. Afinal de contas todos estamos programados para ver o mundo apenas do nosso ponto de vista, para sermos o eixo do nosso próprio universo, para sentirmos as nossas emoções de maneira imediata, vívida e real, ao contrário das emoções alheias, que recebemos sempre em segunda mão. Contrariar o nosso egocentrismo predefinido implica uma escolha que é em si bastante desconfortável, implica um esforço de tentar entender experiências que não são as nossas e traduzi-las até se tornarem tangíveis na nossa compreensão – é receber por opção uma dor que não nos pertence para tentar aliviá-la no outro.
A literatura de autoajuda alimenta-se há muito destes temas e são eles que de um modo mais ou menos subversivo formam o eixo desta exposição.
A indústria da autoajuda é bastante alargada no seu foco e nas suas ramificações mas partilha frequentemente várias características: conjuntos de instruções para uma existência equilibrada em grupo, lemas, slogans, ferramentas e estratégias para o bem-estar emocional, passos (como se de uma dança se tratasse) para uma vida com sentido e exemplos pessoais como método de legitimação das soluções apresentadas. No seu melhor, os livros de autoajuda podem oferecer um ponto de partida para a auto-reflexão, no seu pior, são incapazes de oferecer um ponto de chegada realmente profundo e significativo.
Naturalmente, é fácil abordar estes livros com cinismo, porque são também (ou sobretudo) produtos, porque apontam para um público vulnerável, ou porque tentam dar respostas a questões que não conhecemos ou para as quais não temos resposta.
O que a Catarina faz nesta exposição é apropriar-se de várias das características da literatura de autoajuda apresentadas acima e usá-las como ready-mades conceptuais e estruturais e com isso definir um campo de acção para a sua linguagem. As respostas são substituídas por dúvidas e vulnerabilidades, os twelve steps são substituídos pelos eight steps de texto dançante, as listas deixam de ser regras a cumprir e passam a rituais diarísticos de atenção e a distância abstracta do autor de autoajuda desaparece na vontade literal de abraçar o leitor.
O trabalho que tem vindo a ser feito pela Catarina é uma vontade constante de ligar coisas e procurar sentido. Um sentido que tanto pode ser encontrado na linguagem como no encontro entre pessoas. A ideia de autoajuda sobre a qual ela trabalha é a mediação feliz entre a linguagem, o afecto e as pessoas. Self Help Self Hope é por isso uma exposição de autoajuda inquieta que pensa sobre si mesma e subverte a partir de dentro os aspectos desonestos no género.
Se já definimos empatia como vontade de partilha, podemos falar do abraço como a sua concretização. O abraço como manifesto de afecto, confiança e vulnerabilidade. E há várias possibilidades neste abraço – desde a sua materialização física nos amigos até à vontade da própria exposição de abraçar quem visita ao criar um espaço acolhedor, um local para ver e pensar, mas também para estar. Os amigos são os convites para ficar e dar atenção aos trabalhos e às pessoas. E tal como os afectos e as memórias esta exposição acompanha-nos quando vamos embora.
José Costa
créditos © Bruno Lopes
HCI / Colecção Maria e Armando Cabral /
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