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Ciclo da Cobra / JH Engstron — The Frame

«Uma das renegociações existenciais mais importantes na história da humanidade está a acontecer neste preciso momento. Estou a referir-me à questão dos enquadramentos no interior dos quais nos definimos a nós próprios e dentro dos quais temos vivido desde os primórdios da civilização humana: a definição de género. Em The Frame investigo, por meio de um autorretrato expandido, a imagem e a noção do género masculino e exploro aspetos menos tratados e formulados deste enquadramento em que os homens têm vindo a ser definidos: vulnerabilidade e fraqueza. The Frame é uma interrogação visual da identidade. »

JH Engström, março de 2018

The Frame (2018) é uma nova obra de JH Engström (Värmland, Suécia, 1969) que teve origem numa reflexão sobre a contemporânea e fundamental questão do género, da dominação e, mais geralmente, dos enquadramentos sociais que regem a nossa vida. A instalação baseia-se numa correspondência simbólica entre uma projeção mural de mais de duzentos autorretratos e retratos de homens realizados pelo artista ao longo das últimas duas décadas e uma fotografia monumental de uma acumulação de fragmentos de rocha, conhecida como morena, captada pelo artista em 2016 na sua região nativa de Värmland, no sul da Suécia.

Estas centenas de homens, fotografados em espaços públicos ou privados, em instantâneos ou fotografias encenadas, vestidos ou despidos, são amigos do artista, desconhecidos e também alguns dos seus mentores. Entre eles, podemos reconhecer os artistas Robert Frank ou Boris Mikhaïlov, bem como o pai do artista. Todos foram fotografados enquanto seres isolados, de modo que o seu corpo, a sua fisicidade, se assume como o quadro de referência do seu retrato. Muitos apresentam sinais de fraqueza e vulnerabilidade. Estes retratos são alternados com inúmeros autorretratos do artista captados em diversos estádios da sua vida. Numa sociedade há muito governada pela figura dominante do homem, o artista, nascido em 1969, questiona e coloca em dúvida os nossos constrangimentos sociais.

JH Engström fotografou compulsivamente morenas durante meses com a sua câmara de grande formato, na sua região nativa de Värmland, no sul da Suécia. Uma morena é uma acumulação de detritos de rocha que foram erodidos e transportados por glaciares na sequência do degelo no final da última era glacial, há, pelo menos, 10 000 anos. Massivos rochedos despedaçados ali permanecem enquanto metáforas de resistência e permanência.

Em The Frame (2018), essa massa pesada de rocha fragmentada, cuja monumental fotografia se encontra emoldurada em metal e apoiada no chão em pedestais de madeira, confronta essas centenas de homens cujos retratos, projetados na parede, desaparecem uns a seguir aos outros. Este novo trabalho de JH Engström coloca a questão da dominação e da representação na nossa sociedade e remete para análises que têm vindo a ser realizadas no campo dos estudos de género desde a década de 1980. Aqui, o artista também questiona o estatuto e a duração das imagens impressas, fixadas e temporárias.

Jean-Kenta Gauthier

créditos © bruno lopes

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